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Dostoievski (I) – suprema existência

segunda-feira 12 de setembro de 2022

    

Entre outras coisas, pôs-se a meditar como em seu estado   epiléptico, quase no limiar do próprio ataque   (se é que o próprio ataque aconteceu na realidade), chegara a um grau em que subitamente, em meio à tristeza  , à escuridão da alma  , à pressão, seu cérebro   pareceu inflamar-se por instantes e todas as suas forças vitais retesaram-se ao mesmo tempo com um ímpeto incomum  . A sensação   de vida, de autoconsciência quase decuplicou nesses instantes que tiveram a duração de um relâmpago. A mente  , o coração   foram iluminados por uma luz extraordinária; todas as inquietações, todas as suas dúvidas, todas as aflições pareceram apaziguadas de uma vez, redundaram em alguma paz   superior, plena de uma alegria   serena, harmoniosa, e de esperança  , plena de razão e de causa   definitiva. Mas esses momentos, esses lampejos ainda eram apenas um pressentimento daquele segundo definitivo (nunca mais que um segundo) após o qual começava o próprio ataque. Esse segundo, é claro, era insuportável. Refletindo mais tarde sobre esse instante  , já em estado sadio, ele dizia frequentemente de si para si: que todos esses raios   e relâmpagos da suprema autossensação e autoconsciência e, portanto, da “suprema existência” não passam de uma doença  , de perturbação   do estado normal e, sendo assim, nada têm de suprema existência, devendo, ao contrário, ser incluídos na mais baixa existência. E, não obstante, ainda assim ele acabou chegando a uma conclusão extremamente paradoxal: “Qual é o problema de ser isso uma doença? — decidiu finalmente. — Qual é o problema se essa tensão é anormal, se o próprio resultado, se o minuto de sensação lembrada e examinada já em estado sadio vem a ser o cúmulo da harmonia  , da beleza, dá uma sensação inaudita e até então inesperada de plenitude  , de medida, de conciliação e de fusão extasiada e suplicante com a mais suprema síntese da vida?”. Essas expressões obscuras lhe pareciam muito compreensíveis, ainda que excessivamente fracas. De que isso era realmente “beleza e súplica”, de que isso era realmente “a suprema síntese da vida” ele não podia nem duvidar, e aliás não podia nem admitir dúvidas. É que não foram algumas visões que naquele momento lhe apareceram em sonho  , como provocadas por haxixe, por ópio ou vinho  , que humilham a razão e deformam a alma, visões anormais e inexistentes. Sobre isso ele podia julgar com bom senso ao término do estado doentio. Esses instantes eram, justamente, só uma intensificação extraordinária da auconsciência — caso fosse necessário exprimir esse estado por uma palavra —, da autoconsciência e ao mesmo tempo da autossensação do imediato no mais alto grau. Se naquele segundo, isto é, no mais derradeiro momento de consciência   perante o ataque ele arranjasse tempo para dizer com clareza   e consciência a si mesmo  : “Sim, por esse instante pode-se dar a vida toda!” — então, é claro, esse momento em si valia a vida toda. Aliás ele não defendia a parte dialética da sua conclusão: o embotamento, a escuridão da alma, o idiotismo se apresentavam diante dele como uma nítida consequência desses “minutos supremos”. A sério  , é claro, ele não se meteria a discutir. Na conclusão, isto é, na sua avaliação desse instante, havia sem dúvida um erro  , mas a realidade da sensação o embaraçava um pouco, apesar de tudo. O que efetivamente fazer com a realidade? Note-se que isso mesmo já acontecia, note-se que ele mesmo já conseguira dizer para si mesmo, naquele mesmo segundo, que esse segundo, por uma felicidade   infinda que ele sentia plenamente, talvez pudesse valer mesmo toda a vida. “Nesse momento — como ele dissera certa vez a Rogójin, em Moscou, nos momentos em que então estavam juntos —, nesse momento me fica de certo modo compreensível a expressão   insólita: não haverá demora [1]. Provavelmente — acrescentou ele, sorrindo — trata-se daquele mesmo segundo em que não houve tempo de derramar-se o vaso emborcado com a água do epiléptico Maomé que, não obstante, no último segundo conseguiu contemplar todas as habitações de Alá.”

[excerto   de DOSTOIÉTVSKI, Fiódor. O Idiota. Tr. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015]


Ver online : Fiodor Dostoievski


[1Dostoiévski cita o Apocalipse de João, cap. 10, v. 6. (N. da E.)