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Ibn Arabi (Fusus): I - Adão §7

sábado 20 de agosto de 2022

    

Mas retornemos agora à Sabedoria   (divina em Adão). Podemos dizer a seu respeito que as Ideias universais (al-umur al-kulliyah) [1], que não têm evidentemente existência individual como tal, não são menos presentes, inteligivelmente e distintamente, no mental  ; elas permanecem sempre interiores em relação à existência individual, mas determinam tudo o que pertence a esta. Além do mais, aquilo que existe individualmente é apenas (a expressão   de) estas Ideias universais, sem a qual estas últimas cessam portanto de ser nelas mesmas puramente inteligíveis. Elas são portanto exteriores enquanto determinações implicadas na existência individual e, por outro lado, interiores enquanto realidades inteligíveis. Tudo que existe individualmente [2] eleva-se destas Ideias, que permanecem no entanto inseparavelmente unidas ao intelecto [3] e não saberiam manifestar-se individualmente de maneira a sair de sua existência puramente inteligível [4], quer se trate da manifestação   individual no tempo ou fora do tempo [5]; pois a relação entre o ser individual e a Ideia universal   é sempre a mesma, quer este ser esteja ou não submetido à condição temporal [v. emana]. Somente a Ideia universal assume por sua vez certas condições próprias às existências individuais, seguindo as realidades (haqaiq) que definem estas mesmas existências. Assim é, por exemplo, da relação que une o conhecimento e o conhecedor ou a vida e o vivente: o conhecimento e a vida são realidades inteligíveis, distintas uma da outra; ora, nós afirmamos de Deus   que Ele é conhecedor e vivente, e nós afirmamos igualmente do Anjo   que ele é conhecedor e vivente, e dizemos isto do mesmo modo do homem  ; em todos estes casos, a realidade inteligível do conhecimento ou aquela da vida permanece a mesma, e sua relação ao conhecedor ou ao vivente é cada vez idêntica; e, no entanto, diz-se do conhecimento divino que ele é eterno e do conhecimento do homem que ele é efêmero  ; existe portanto alguma coisa nesta realidade inteligível que é efêmera por sua dependência a respeito de uma condição (limitativa). Ora, considere esta dependência recíproca das realidades ideais e das realidades individuais [6]: do mesmo modo que o conhecimento determina aquele que dele participa, — pois o chamamos conhecedor, — do mesmo modo, aquilo que é qualificado pelo conhecimento determina por sua vez o conhecimento, de modo que ele é efêmero em conexão com o eterno; e cada um dos dois   lados é, em relação ao outro, ao mesmo tempo determinante e determinado [7]. É certo que estas Ideias universais, apesar de sua inteligibilidade, não têm, como tais, existência (própria), mas somente uma existência primordial; do mesmo modo, quando elas se aplicam aos indivíduos, elas nisto aceitam a condição (hukm) sem todavia nisto assumir a distinção nem a divisibilidade; elas são integralmente presentes em cada coisa qualificada por elas, como a humanidade (a qualidade   de homem), por exemplo, está presente   integralmente e cada ser particular desta espécie sem sofrer   a distinção nem o número   que afetam os indivíduos, e sem cessar de ser nelas mesmas uma realidade puramente intelectual.

Ibn Arabi (Fusus): I - Adão §6Ibn Arabi (Fusus): I - Adão §8


Ver online : Parágrafos do Fusus - Adão


[1Os “universais”, segundo a terminologia escolástica.

[2DagliRW: The qualities possessed by any given identity are none other than that identity. Concretely there is only one entity, although conceptually one introduces multiplicity by saying, for example, “This man is alive.” Life is not a separate entity because it is part of the what-it-is or essence of man.

[3DegliRW: Although from one point of view they are identical or are none other than an individual identity, from another point of view they have an independent existence as concepts, as “objects of intellect” or “intelligibilia” maqulat).

[4DagliRW: Regardless of what happens to the particulars, a universal remains immutable insofar as it is an intelligible (i.e. an object of perception at the level of the intellect).

[5Segundo a linguagem da qual se serve Ibn Arabi aqui, a ideia de “existência individual” (wujud ‘ayni) pode ser simbolicamente transposta além da condição formal, que é o domínio da individuação propriamente dita. Assim por exemplo, um Anjo não é um “indivíduo”, porque não representa uma variante no interior de uma espécie; no entanto, o argumento enunciado acima se aplica igualmente aos Anjos.

[6Al-mawjudat al-’ayniyah: as existências — ou realidades — individuais ou substanciais; ver a nota precedente.

[7DagliRW: Because being is one, any Quality of being is also one. All knowledges, if one can state it in this way, are really none other than Knowledge, just as all lives are none other than Life. One of the major themes of the Ringstones is the limitation of divine Reality if it is only considered from the point of view of being absolute. It is in comprising both the absolute and modes of restriction or qualification that reality is perfected. The Shaykh discusses this point more explicitly in the Ringstone of Moses, where he mentions that knowledge is perfected by comprising both the eternal and the becoming. That which comes to be is determining in the sense that the knowledge in an entity that comes to be is, from a certain standpoint, none other than the one reality of Knowledge.