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Arendt (VE:55) – pensar - querer - julgar

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Abranches, Almeida e Martins

Pensar  , querer e julgar são as três atividades espirituais básicas. Não podem ser derivadas umas das outras, e embora tenham certas características comuns, não podem ser reduzidas a um denominador comum. Para a pergunta “O que nos faz pensar?” não há, em última instância, outra resposta   senão a que Kant   chamava de “a necessidade   da razão”, o impulso interno dessa faculdade para se realizar na especulação  . Algo semelhante pode ser dito da vontade, que não pode ser movida nem pela razão nem pelo desejo. “Nada além da vontade é a causa   total da volição  ” (“nihil   aliud a voluntate est causa totalis volitionis in voluntate”), na notável fórmula de Duns Scotus; ou “voluntas vult se velle” (“o querer quer querer-se”), como até mesmo São Tomás, o menos voluntarista dentre aqueles que refletiram sobre esta faculdade, teve que admitir. [1] Por fim, o juízo  , a misteriosa capacidade do espírito   pela qual são reunidos, o geral, sempre uma construção espiritual, e o particular, sempre dado à experiência sensível  , é uma “faculdade peculiar” e de modo algum inerente ao intelecto, nem mesmo no caso dos “juízos determinantes” — em que os particulares são subordinados a regras gerais sob a forma de um silogismo —, porque não dispomos de nenhuma regra   para as aplicações da regra. Saber como aplicar o geral ao particular é um “dom natural” suplementar, cuja ausência   é “comumente chamada de estupidez  , e para tal falha não há remédio”. [2] A natureza autônoma do juízo é ainda mais óbvia no caso do “juízo reflexivo”, que não desce do geral para o particular, mas vai “do particular... até o universal  ”, quando determina, sem qualquer regra geral, que “isto é belo”, “isto é feio  ”, “isto é certo”, “isto é errado”; e, aqui, por um princípio direto, o julgar “só pode adaptar [se] como uma lei de si mesmo   e para si mesmo.” [3]

Original

Thinking, willing, and judging are the three basic mental activities; they cannot be derived from each other and though they have certain common characteristics they cannot be reduced to a common denominator. To the question What makes us think? there is ultimately no answer other than what Kant called “reason’s need,” the inner impulse of that faculty to actualize itself in speculation. And something very similar is true for the will, which neither reason nor desire can move. “Nothing other than the Will is the total cause of volition” (“nihil aliud a voluntate est causa totalis volitionis in voluntate”), in the striking formula of Duns Scotus, or “voluntas vult se velle” (“the will wills itself to will”), as even Thomas, the least voluntaristic of those who thought about this faculty, had to admit. Judgment, finally, the mysterious endowment of the mind   by which the general, always a mental construction, and the particular, always given to sense experience, are brought together, is a “peculiar faculty” and in no way inherent in the intellect, not even in the case of “determinant judgments”—where particulars are subsumed under general rules in the form of a syllogism—because no rule is available for the applications of the rule. To know how to apply the general to the particular is an additional “natural gift,” the want of which, according to Kant, is “ordinarily called stupidity, and for such a failing there is no remedy.” The autonomous nature of judgment is even more obvious in the case of “reflective judgment,” which does not descend from the general to the particular but ascends “from the particular...to the universal” by deciding, without any over-all rules, This is beautiful, this is ugly, this is right, this is wrong; and here for a guiding principle, judging “can only give [it] as a law from and to itself.”


[1De Veritate, questão XXII, art. 12.

[2Critique of Pure Reason, B171-B174.

[3Critique of Judgement, trad. J. H. Bernard, Nova Iorque, 1951, Introdução, IV.