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Gerson: conhecimento de si mesmo

sexta-feira 25 de março de 2022

Excerto de GERSON, Lloyd P.. "Self-Knowledge and the Good", in AMBURY, James & GERMAN, Andy, KNOWLEDGE AND
IGNORANCE OF SELF IN PLATONIC PHILOSOPHY.
Cambridge: Cambridge University Press, 2019, p. 17-18.

O sujeito dos desejos e atos intelectuais, em termos gerais, é gerado junto com os próprios estados psíquicos. Por exemplo, descobrimos que estamos com fome e, nesse momento, o sujeito que está com fome é gerado; descobrimos que, no meio de alguma situação prática, temos uma crença sobre o que fazer, e o sujeito desta crença é gerado. Ao usar a palavra “gerado”, pretendo enfatizar a concretude do sujeito e sua distinção de um sujeito mais abstrato ou mesmo teórico. Não há desejos ou crenças sem um sujeito para eles, assim como não há desejos ou crenças sem objetos intencionais, um ponto ao qual voltarei abaixo. O sujeito não existe a menos ou até que o estado exista. Tanto o sujeito quanto o objeto intencional são gerados no momento (ou quase no momento) em que o estado é gerado. E quando o desejo é satisfeito ou a crença existente não existe mais, seus súditos desaparecem. Assim, termos para sujeitos como "eu" e "meu" são indexais. Ou seja, eles são puramente contextuais.

Naturalmente, isto não significa que não haja desejos ou crenças disposicionais; significa apenas que, se estes também devem ter um sujeito, esse sujeito não é obviamente idêntico ao sujeito dos desejos e crenças ocorrentes. Pois, se fossem idênticos, apelos normativos seriam impossíveis. Ou seja, se o sujeito de um desejo disposicional fosse idêntico ao sujeito de um desejo ocorrente, não haveria sentido em apelar aos outros desejos ou crenças de alguém para não satisfazer esse desejo; de fato, não haveria possibilidade de alguém resistir ao próprio desejo. Pois tal apelo seria, presumivelmente, feito para o que é do verdadeiro interesse deste alguém ou o que este alguém realmente deseja. Mas se esse sujeito é apenas o sujeito do desejo ocorrente, esse apelo poderia ser apenas para um sujeito hipotético de um futuro desejo ocorrente, não para o sujeito real daquilo que é o desejo disposicional. Não faria sentido apelar para um sujeito futuro de um desejo ocorrente, uma vez que esse sujeito está funcionalmente relacionado ao estado em que se encontra. Dizer que não se deve ter o desejo que se tem é assumir que tal exortação é para um sujeito que não seja o sujeito do desejo, assumindo, é claro, que esses desejos putativos são para o próprio bem. Da mesma forma, que se acredite que não se deveria satisfazer o próprio desejo é apelar para um sujeito outro daquele sujeito deste desejo. Mas este sujeito só pode ser outro daquele do sujeito do desejo corrente. Também deve, em certo sentido, ser idêntico a um sujeito não relacionado ao sujeito do desejo; caso contrário, o fenômeno da fraqueza da vontade não existiria. Se alguém pode desejar tomar drogas e também desejar não ter a vontade de tomá-las, então o sujeito do desejo original não pode ser inequivocamente idêntico ao sujeito.

Se o conhecimento de si mesmo fosse o conhecimento do sujeito de um desejo ou crença ocorrente, o conhecimento de si seria a coisa mais fácil de se alcançar no mundo. A aquisição do conhecimento de si implicaria nada mais do que a consciência dos desejos ocorrentes. No entanto, o conhecimento de si que deve ser particularmente valioso e difícil de obter deve ser o conhecimento de um si que não seja o sujeito de um desejo ou crença ocorrente. Como se deve alcançar esse conhecimento de si?