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aisthesis (platonismo)

sexta-feira 25 de março de 2022

    

15. No Teeteto   (155d-157d) Platão   apresenta uma teoria   da sensação   que é ostensivamente atribuída a Protágoras   ou a algum relativista heraclítico deste tipo. Mas uma vez que ela não é refutada na continuação e é coerente com outros passos dos diálogos, é possível que represente também os próprios pontos de vista de Platão sobre a sensação. Ela articula-se com o aspecto, frequentemente acentuado por Heráclito  , de que entre as aistheta a única realidade é a mudança   ou, para usar a linguagem de uma geração mais sofisticada, as aistheta não são realmente substâncias mas qualidades (ver pathos  ; Platão acentua o mesmo aspecto no Timeu   49b-50, e confrontar stoicheion  ); são poderes (dynameis) com a capacidade de afetarem (poiein  ) as outras coisas ou serem afetados (paschein  ) por elas (Teeteto 156a). Pode igualmente ser verdade, como os primeiros pensadores tinham defendido que o kosmos   nada mais é do que kinesis (loc. cit.), mas também aqui são possíveis posteriores aperfeiçoamentos. Mesmo neste estádio (ver Teeteto 181c) Platão é capaz de dividir a genérica kinesis em alteração   (alloiosis) e locomoção.

16. É dentro deste contexto que a teoria platônica da sensação se desenvolve. A sua formulação mais genérica encontra-se no Phil. 33d-34a e Timeu 64a-d. A dynamis   do agente atua sobre o corpo do paciente. Se a parte afetada é uma parte imóvel na qual a terra   predomina (osso, cabelo) a afecção não se espalha; podia resultar dor   ou prazer mas não a sensação. Mas se é móvel, como um dos órgãos dos sentidos, a afeição   espalha-se até alcançar a consciência   (phronimon) e resulta a sensação (comparar Timeu 43c, e ver psyche   17).

17. Podia parecer que estes dois   passos sugerem que a percepção é uma pura passividade na pessoa   que percebe; mas quando Platão se volta para uma discussão da visão   ele volta a Empédocles   e Demócrito por causa   da teoria que faz da imagem (emphasis) uma produção cooperativa do objecto e do sujeito. Ambos são fundamentalmente qualidades num estado   de transformação (alloiosis), mas uma vez postos ao alcance um do outro e com a ajuda   da luz do sol (Timeu 45b), a dynamis da brancura no objecto e a qualidade   da luz no olho iniciam a locomoção e esta «dá origem» à cor, que faz com que o olho veja e com que o objecto se torne uma coisa colorida (Teeteto 156c-e). Estas mudanças qualitativas, quando transmitidas à alma, conduzem à sensação (Timeu 45c-d, 81c-d). Este passo do Teeteto continua (157a) até retratar a moral heraclítica: se o sujeito e o objecto não estão ao alcance um do outro não temos uma ideia verdadeiramente exata do que na verdade é a dynamis no objecto (para as mudanças em Plotino   ver sympatheia  ).

18. Platão parece, contudo, expressar-se de uma maneira ambivalente. A sua teoria, assim descrita, é fortemente dinâmica na ligação que faz dos pathe com os poderes e na sugestão de que a dynamis é uma qualidade real inerente ao objecto percebido (cf. Teofrasto, De sens. 60). Mas também já na sua outra explicação da gênesis pos-cósmica, havia reduzido todos os corpos aos sólidos geométricos e assim, em última análise, a sua explicação dos pathe sensíveis no Timeu 61d ss. tem laivos de uma espécie de atomismo com a sua redução da qualidade à quantidade na ordem   da forma (schema  ), posição   (thesis) e movimento (kinesis), neste caso, evidentemente, locomoção.


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