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Intelectualismo socrático

sexta-feira 25 de março de 2022

    

O MESTRE (cont.)
Excertos de Micheline Sauvage, Sócrates  . Agir, 1959 (original em francês: Socrate ou la conscience de l’homme

Isto mostra o sentido que deve ser dado ao que se chama vulgarmente de intelectualismo socrático. A palavra, para dizer a verdade, é bastante imprópria, pois ela veicula para nós uma certa oposição um tanto simplista do raciocínio   frio às inspirações do «coração  » (no sentido pascaliano) que é, sem dúvida, estranha a Sócrates, o homem   demoníaco. Foi por havê-la compreendido mal que alguns modernos tropeçaram na pretensa incompatibilidade entre o «culto da razão» e o misticismo   ou, ainda, na pretensa incompatibilidade entre a pregação socrática e sua definição da virtude como ciência. Provavelmente devemos tais falsos problemas a Aristóteles que atribuiu a Sócrates, com mais boa vontade que compreensão, a «invenção» das definições universais e do discurso indutivo. Como já foi observado a propósito, se a dialética socrática tivesse pretendido ser um aparelho lógico que facultasse a elaboração de uma «ciência» das virtudes por definição e classificação das mesmas, o resultado seria deplorável. Mas Sócrates não é nem lógico nem cientista. Sobre as ciências de seu tempo falou mesmo com certa desenvoltura. A sua dialética, ainda muito próxima da etimologia, não é um método científico, mas simplesmente a arte do diálogo   entre os homens.

Platão transforma esta arte num instrumento de determinação das essências, no instrumento do conhecimento verdadeiro, o que apreende as ideias, e, finalmente, na Ideia das Ideias, a saber a do Bem. Mas a dialética de Sócrates não é o instrumento platônico, nem, tampouco, aristotélico. Tanto Platão como Aristóteles, cada um a seu modo, querem reconstruir o Cosmos, conforme uma ordem   harmoniosa, mística ou racional. E nisto se mantêm fiéis ao ideal da sabedoria   pré-socrática. Se Sócrates procede pela distinção dos gêneros, não é porque procure reconhecer   essências ou induzir conceitos, mas simplesmente porque quer ver claro em si mesmo   e também fazer ver. Método? Não, técnica   para dissipar a escuridão dos espíritos. Os sofistas, precursores, já se preocupavam em distinguir os múltiplos sentidos das palavras, a fim de evitar a confusão   intelectual que eles costumam gerar; sabemos até que Pródicos consagrara uma obra inteira à sinonímia. Na verdade, se os homens, ao conversar, não se entendem a respeito dos termos que empregam, nenhum acordo pode ser estabelecido entre eles. Ora, faltando isto, o diálogo torna-se impossível e sem este, não existe consciência  .

O «culto da razão» corresponde, pois, ao culto da consciência clara. Todo o intelectualismo de Sócrates consiste apenas nisto: a condição da tomada de consciência é a palavra, a palavra ordenada e fecunda do homem que se busca a si mesmo. Logos  : discurso e razão. Esta razão não se opõe à intuição  , mas às certezas de primeira mão  , às certezas que possuímos sem saber como nem donde, vêm. O homem que, ao que parece, acariciou a lira e compôs versos na prisão  , não é, por certo, um lógico frio que olha com desprezo tudo o que diz respeito à inspiração   dos poetas. O que ele quer é acrescentar à inspiração dos poetas uma reflexão   sobre a inspiração. Isto sabemos por um texto de capital importância, muito explícito e de uma sonoridade admiràvelmente moderna, Descartes  , ao falar dos poetas, usa termos muito vizinhos. O homem que quer acrescentar à inspiração uma reflexão sobre a inspiração (como à coragem   uma reflexão sobre a coragem, etc.) é precisamente o filósofo por excelência. Nisto ele é, como disse Nietzsche   a respeito de Sócrates, o «homem teórico» por excelência, no sentido etimológico, isto é, aquele que quer a contemplação   além da ação, o homem que só age uma vez esclarecido.


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