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Sócrates e os sofistas

sexta-feira 25 de março de 2022

    

O MESTRE (cont.)
Excertos de Micheline Sauvage, Sócrates  . Agir, 1959 (original em francês: Socrate ou la conscience de l’homme

A consciência   de si encontra nos Memoráveis uma verdadeira certidão de nascimento, conforme a expressão   de Léon Brunschvicg. Para avaliar o alcance da revolução socrática devemos confrontar, mais uma vez, a Sócrates com sua família intelectual, com os sofistas. Trata-se, com efeito, de um acontecimento   de suma importância não só para a filosofia, mas para toda uma civilização, a nossa, que nela encontra uma orientação decisiva.

Os sofistas são, também, especialistas em questões humanas e não em «coisas celestes». Fazem profissão (no sentido literal, em troca de salário  ) de formar os jovens para a vida pública e privada. A força, pois, de estudar o homem   com os olhos bem abertos não deixaram certamente de enxergar aquilo que, antes deles, ninguém vira, a saber, que as tradições, crenças e maneiras   de julgar e viver   são de origem humana e não divina. Mais ainda. Tiveram a coragem   e ao mesmo tempo a ingenuidade de depreender de semelhante relativismo   as consequências lógicas que se impunham. Encontramos, com efeito, em Pródicos um esboço de interpretação   crítica dos cultos em função de sua utilidade   vital. O nome de Protágoras   está ligado ao célebre aforisma, segundo o qual o homem é a medida de todas as coisas. Espíritos indispensáveis e perigosos, desancoram os próprios contemporâneos e deixam—nos flutuando ao sabor   das ondas. De toda a obra de mistificação, esses mistificadores apenas souberam levar a bom termo a parte negativa. Isto não basta para fazer os Alcibíades e os Crítias, mas lhes dá uma caução moral.

Sócrates realiza a mesma aventura de espírito  , mas de maneira diferente. Como Pródicos ou Protágoras, julga que a criatura humana sem o pensamento   não passa de simples coisa e que «uma vida sem exame   não merece ser vivida». Como eles, desagrega pela crítica o universo   coeso em que o homem se entrosava como num todo para abandoná-lo à própria sorte. Uma diferença  , porém: Sócrates transforma em busca positiva o exercício que para aqueles não passava de jogo   dissolvente. «Eu busco» diz ele. O quê? — Um poder do homem que possa substituir   o universo moribundo das coisas e fundar o reino humano.

Uma liberdade capaz de garantir a substituição das velhas certezas cambaleantes. Ora, tal poder é precisamente a consciência. A crítica dos sofistas é um pensamento que conhece apenas o que dissolve, mas que se ignora a si mesmo  ; razão pela qual não consegue ultrapassar sua própria, virtuosidade. Sócrates, entretanto, mesmo no mais trivial dos diálogos, tende sempre a colocar seu interlocutor em face   de si próprio no intuito de substituir por uma conduta, refletida e autônoma, as condutas automáticas e implícitas, ameaçadas por uma deterioração inevitável, pois pesa sobre as tradições e hábitos o destino inexorável de virem a se perder, sobre as crenças o de serem abaladas e sobre as obediências de, mais cedo ou mais tarde, serem recusadas.

Nem era, pois, de estranhar que Lamproclés, embora fosse um filho   respeitoso, acabasse um dia por se irritar com o humor insuportável de sua mãe. Sócrates esforça-se, então, por levar o jovem a refletir sobre aquilo que antes se limitara a viver como criança   dócil. E a reflexão   transformará o indivíduo singular que sofria os maus tratos de outrem numa pessoa humana capaz de compreender sua relação com outra debaixo das espécies do universal  . Como não se há de tornar covarde o soldado corajoso se sua coragem é apenas questão de hábito   ou de ímpeto? Tentemos um pouco, Lachés, homem valente, saber em que consiste a coragem, isto é, pensar nossa coragem em vez de ser.


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