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A morte de Sócrates

sexta-feira 25 de março de 2022

Todos conhecem, do Criton  , a famosa "prosopopeia das leis  ". Trecho escolhido para antologia, que basta para classificar como exemplar a morte de Sócrates  . O filósofo inocente prefere a cicuta injusta à uma fuga que redundaria em desdouro das leis   de sua cidade. Mais consciente do próprio valor, Aristóteles  , conforme se conta, ao se ver ameaçado de processo semelhante, eclipsou-se, declarando: "Não deixarei Atenas pecar duas vezes contra a filosofia". Não lhe sorria a perspectiva de ser um segundo Sócrates  .

Mas, enfim, a prosopopeia das leis   nada explica se ela mesma não é explicada. O respeito de Sócrates   é sincero, mas de maneira alguma fetichista. Uma prova é não se ter jamais abstido de criticar, por exemplo, as instituições políticas de Atenas, quando estas lhe pareciam contradizer a razão. Convém, sobretudo, notar que o homem de respeito e o ironista formam em Sócrates   um todo indissolúvel. A partir disso, deve-se procurar a medida de sua obediência, não na abdicação do indivíduo perante a coletividade, mas no livre consentimento da pessoa. Aos juízes declara sem cerimônia: Não me ordenem que renuncie à minha tarefa porque não obedecerei jamais. "Obedecerei ao deus antes que a vós". É claro. Sócrates  , segregado como todo revolucionário autêntico, poderia transpor assim a palavra de um personagem do Diálogo das Carmelitas: não é o grupo que me sustenta, mas sou eu que sustento o grupo. Por esta razão Han Ryner, que consagrou tantos capítulos ao problema de Sócrates  , suspeita que os discípulos tenham fabricado um Sócrates   conformista por espírito de prudência, transformando, assim, em inimigo dos sofistas e amigo das leis   o amigo dos sofistas e inimigo das leis  . Arrebatado por sua tese, ele não vê sorrir o revolucionário até na apologética do muito conformista Xenofontes, e não consegue mais explicar que este revolucionário tenha antes preferido morrer a ir viver alhures.

O sentido apenas oculto por metade da prosopopeia das leis   deve ser procurado sem dúvida na Apologia platônica. O respeito de Sócrates   não é, por certo, aquele que leva a dobrar os joelhos diante dos imperativos de uma sociedade divinizada. Nem corresponde, tampouco, ao sentido do contrato social sugerido pelo texto do Criton  . Antes, pelo contrário, se recusa a fuga fácil e deixa a cidade cometer um crime, é porque quer permanecer fiel até o fim ao mandamento délfico. Não fala debalde, na Apologia, em deserção. Sua função é aqui e não noutra parte. Por isso é que, antes mesmo de se recusar a fuga clandestina, já se recusara ao exílio legal, is Separado de Atenas pelo intervalo de uma consciência, ele é, entretanto, de Atenas, ele é a própria Atenas. Tal solidariedade seria, porém, rompida por um Sócrates   que procurasse safar-se e o próprio Sócrates   se dissiparia como um fantasma. Não restaria, então, nada mais que um indivíduo qualquer, um certo Sócrates  , filho de Sofronisco...

O Estagirita podia abandonar Atenas e permanecer Aristóteles  . Mas Sócrates   não. Sócrates   é sua morte.


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