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Rocha Pereira: A forma de diálogo narrado

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Excertos da introdução de Maria Helena da Rocha Pereira, à sua tradução da «República  »

Uma primeira característica salta aos olhos de quem abrir este tratado: a sua forma de diálogo  , não dramaticamente expressa, como no Górgias  , Ménon   ou Fedro  , mas sob a aparência de uma narrativa feita por Sócrates a um auditório anônimo [1], ou seja, exactamente o mesmo processo adoptado no Protágoras  , Cármides   e Lísis [2].

O facto tem sido explorado - era inevitável - como base para estabelecer a tão discutida cronologia relativa da obra de Platão, tanto mais que no Teeteto   (143b-c) o processo é explicitamente declarado incômodo e, como tal, abandonado. Mas o passo em questão não é de molde   a excluir a possibilidade de a forma narrativa ter sido retomada posteriormente a esse diálogo, e, de um modo geral, a crítica moderna tende a desvalorizar este critério de datação [3]].

Permanece certa, porém, a vantagem  , proporcionada pela narrativa, de permitir uma caracterização mais acentuada das figuras e de reconstituir com mais relevo o ambiente em que se movimentam [4]. Basta atentar em certos pormenores da República para obtermos uma brilhante confirmação do facto: logo na entrada, o escravo   de Polemarco, que chega a correr ao pé de Sócrates e lhe agarra o manto por detrás, a fim de lhe pedir, da parte do amo, que se não retire já; e o voltar do mestre, para saber de quem se trata ( [5]); depois a inesquecível agitação de Trasímaco, que não pode mais dominar a indignação que lhe causa   o método de investigação seguido por Sócrates (I. 336b); o suor e o rubor do Sofista  , ao sentir-se derrotado (I. 350c-d); mais adiante, no começo do Livro V, o estender da mão   de Polemarco, que estava sentado longe de Adimanto e lhe puxa pela veste  , inclinando-se para a frente, para lhe segredar umas palavras, de que os circunstantes só ouvem a resposta   - a resposta que vai alterar   o curso do diálogo (V. 449b-c).


[1Noutros diálogos, o interlocutor é nomeado. Assim, e para só citar o mais conhecido, na abertura do Fédon, é o discípulo de Sócrates com este nome que conta a Equécrates a conversa final e os últimos momentos do Mestre.
A forma de diálogo, em si, não é, como se sabe, novidade platônica, pois outros discípulos de Sócrates o usaram. Mas só Platão elevou o diálogo filosófico a gênero literário.

[2Além destes, são também diálogos narrados o Eutidemo, o Fédon (citado na nota anterior), o banquete e o Parménides. A relação pormenorizada das variantes usadas para os introduzir pode ver-se em Paul Shorey, What Plato Said, pp. 63-64.

[3Estamos longe, portanto, das posições extremas assumidas no séc. XIX, como a de Schöne (1862), que considerava os diálogos narrados como os últimos, ou como a de Teichmüller (1879), que sustentava a tese oposta. No entanto, um especialista como Holger Thesleff (Studies in tbe Styles of Plato, Helsinki, 1967, p. 19) continua a entender que as diferenças entre as duas modalidades são notáveis e incluem modos de composição e estilo que parecem tornar difícil de aceitar a passagem de uma para outra.
[O mesmo especialista, nos seus recentes Studies in Platonic Chronology, Helsinki, defende a teoria de que essas diferenças se reflectem na aplicabilidade do critério estilométrico como índice de datação.

[4Cf., entre outros, P. Shorey, What Plato Said, p. 64.

[5Republica-I|I. 327b