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Platão: Mito da Natureza da Alma

sexta-feira 25 de março de 2022

    

3. A natureza da alma  . — O Fedro  , acabamos de o ver, comparou a alma com um carro alado, com um cocheiro   e dois   cavalos; uma passagem do texto, que segue de perto tanto este como a narrativa do episódio da queda, traz-nos pormenores acerca desse carro. O primeiro dos cavalos (cf. 253 d e seg.) é um cavalo branco de olhos pretos, é belo e forte  , ama a prudência   (sophrosyne  ) e a moderação (aidos  ); companheiro da opinião   verdadeira, não precisa de ser batido para ser conduzido, a palavra de encorajamento é suficiente para ele. Ao contrário, o outro cavalo é preto com olhos cinzentos, é mal feito, é um companheiro da desmesura e da vaidade  ; para o conduzir, o cocheiro (hybris  ) tem de lhe dar pancadas com um chicote de pontas. Assim, a alma humana é puxada ao mesmo tempo pelo cavalo branco, que a dirige no caminho   do equilíbrio, da medida e da verdade, e é sacudida pelo cavalo rebelde, que simboliza as paixões humanas, fontes de injustiça   e de desordem  .

A alma humana não é, portanto, simples, tem consigo a marca   da complexidade do homem  . É isso que testemunham dois outros textos de Platão (Timeu  , 69 c, e República  , 436 c) que distinguem três partes na alma humana, as duas primeiras mortais  , a terceira imortal.

A primeira parte da alma é a concupiscência   (epithymia); é dela que dependem os apetites inferiores: fome, sede, desejo sexual; reside no baixo-ventre e o seu princípio é a falta de razão   e o desejo. A sua virtude é a temperança (sophia  ).

O coração   (thymos  ) é a segunda parte da alma mortal, é dele que vêm as paixões; tem o seu lugar no diafragma, o seu princípio é a cólera   (orge) e a sua virtude a coragem   (andreia). Essa cólera pode ser aliada da razão quando refreia os desejos, como Platão nos mostra com a personagem de Leonte que sentiu o desejo de ver os cadáveres dos supliciados, lutou contra esse movimento  , acabou por lhe ceder e correu para os mortos invetivando os seus próprios olhos: «Tomem, infelizes, gozem deste belo espetáculo  » (440 a).

O espírito   (noûs) é a única parte da alma que é imortal, tem a sua residência na cabeça  , o seu princípio é a razão e a sua virtude a prudência (sophrosyne).

A virtude, que no indivíduo   assegura o seu papel a cada uma das três partes da alma, é a justiça (dikaiosyne).

Esta divisão   tripartida da alma não tem apenas um alcance psicológico e ético, tem também um alcance sociológico, assim como teremos ocasião de ver ao estudar as ideias políticas de Platão; efetivamente, «estão na alma do indivíduo as mesmas partes e em mesmo número do que no Estado  » (República, IV, 441 c). Para Platão, a cidade ideal tem de possuir três classes de cidadãos que correspondam às três partes da alma, e assim como a justiça no indivíduo atribui o seu papel a cada uma das suas partes, do mesmo modo a justiça social consiste na manutenção das três classes da cidade no seu lugar respetivo de modo que nenhuma vá apossar-se das funções das outras.


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