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Eudoro de Sousa: Parmênides — A Opinião dos Mortais

sexta-feira 25 de março de 2022

52. A terceira parte do poema de Parmênides   não é, pois, artifício dialéctico, como a primeira não é artifício literário. A «Opinião dos Mortais» está intimamente ligada à «Via da Verdade» pela ideia de que o Ser só pode aparecer (ou «parecer a») com um mínimo de diferenciação. A correlação entre perceptibilidade, do lado do sujeito, e a diferença, do lado do objeto, não vem diretamente expressa em Parmênides  , mas as primeiras linhas da Metafísica de Aristóteles, dir-se-ia que só foram escritas para evidenciá-la bem claramente: «Por natureza, todos os homens desejam conhecer; sinal disso, é o amor dos sentidos; pois, utilidade à parte, são estimados por si mesmos, e, mais do que todos, o da vista. Com efeito, não só para agir, mas também quando nada pensamos fazer, preferimos o sentido da vista, por assim dizer, a todos os demais. Causa é que, dos sentidos, é este o que mais nos faz conhecer, e nos revela mais diferenças.» Em contrapartida, a «Via da Verdade» é a argumentação lógica de que o Ser é pensável, enquanto indiferenciado: pensar e ser não é o mesmo (frgs. 3 e 8, 34), senão enquanto o Mesmo aí está para ser pensado e para ser, e só porque ser é ser o Mesmo e pensar é pensar o Mesmo, é que o mesmo é ser e pensar. Aqui podemos concordar plenamente com Tarán (193-194): «resta uma questão: se do Ser nada pode ser predicado, porque diz o próprio Parmênides   que o Ser é imutável, único, etc., ou, porque é que o Ser tem sêmata (’sinais’) ou predicados? A resposta é que os sêmata do Ser são predicados puramente negativos, quer dizer, só negam diferença e são apenas a consequência da identidade do Ser consigo mesmo». Por cima de todas as notáveis divergências no pensar de Anaximandro   e Parmênides  , convenha-se, pelo menos, em que tão notável é a convergência na mesma inclinação que mostram, para situar um Indiferenciado no horizonte extremo de toda a perceptibilidade. E aqui não vemos como evitar a qualificação «sem limites internos», para o ápeiron do filósofo de Mileto (cf. § 37): Tales e Anaxímenes   formam uma «escola» com Anaximandro  , porque, sem dúvida, a «água» do primeiro era uma feliz imagem do Indiferenciado: quanto mais pura e cristalina, tanto mais se prestava, qualquer massa de água, para figurar «o que não tem limites internos». E com isto, abria-se a porta por onde havia de entrar o «ar» de Anaxímenes  . Aliás, na codificação mítica, entidades como o Oceano, o Caos, ou mesmo a Noite, suportam até certo ponto a comparação com o Indiferenciado; o ponto certo é a homogeneidade que, no limite da perfeição, toca as fronteiras da imperceptibilidade: a Noite, segundo o poeta, «apaga todas as diferenças que ao longe vemos»; o Oceano, que circunda o ecúmeno, é uma corrente em que a nascente e a foz se confundem de modo a não se distinguir nem sequer o ponto em que ela começa e acaba; o Caos, se fosse o escancarado Abismo, de que se abstraíram os íngremes pendores (Gigon, 1945, cap. i), reduzir-se-ia ao espaço vazio. De Tales a Parmênides  , pode dizer-se que a codificação filosófica do «fascinante mistério do horizonte» coincide com a sua codificação mítica, acentuando, ambas, a nota de in-diferença e, sobretudo, a de imperceptibilidade.


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