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Brun: Parmênides — Fragmento III

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Resume-se a poucas palavras to gar auto noein   estin te kai einai  , mas qualquer tradução é já uma interpretação  . Uma tradução muito corrente é a que consiste em ler: «É a mesma coisa pensar e ser.» F.-M. Cleve [1] vai mesmo ao ponto de ver nesta fórmula like an ancient cogito ergo sum. Mas Burnet protesta contra uma tradução que, em seu entender, é um arcaísmo filosófico [2] e traduz: «Uma só e mesma coisa pode ser concebida e pode ser.» Jean Beaufret   traduz por seu lado: «O mesmo, esse, é ao mesmo tempo pensar e ser.» Esta última tradução apoia-se numa interpretação de Heidegger   em que vale a pena   determo-nos.

Para Heidegger [3], o cristianismo teria deformado   o sentido deste pensamento de Parmênides  . Seria contrassenso crer que o ser não é mais que o ato do pensamento. Conviria então perguntar o que significam to auto e te ... kai, depois o que quer dizer noein e, por fim, que sentido convém atribuir a einai. Seguiremos a análise que Jean Wahl   faz desta exegese de Parmênides por Heidegger [4]. O noein seria a physis  , isto é, o reino que se abre e desenvolve na luz, o ser que é aparecer   e manifestação. Quanto ao noein, que se traduz por conhecer, é preciso não ver nele qualquer pensamento lógico. Conviria traduzi-lo por entender, no seu significado de acolher  , deixar vir a si (daí o derivado entender-se e o substantivo entendimento), e ainda por atender, no sentido de ouvir   uma testemunha a quem se concede a palavra. Assim o noein seria o entendimento daquele que concorda com qualquer outro e o atendimento daquele que escuta e toma uma posição   de vénia para receber o adversário e levá-lo a deter-se imediatamente. Por isso, para Heidegger, o noein seria o ato de trazer o que aparece ao ser e o de o deter.

Quanto ao to auto, designaria a unidade  , não a da pura uniformidade e identidade   como indiferença, mas como pertença recíproca do contrastante. Ou seja, segundo uma ideia cara a Heidegger, Parmênides convergiria aqui com Heráclito   falando da unidade dos contrários  . Portanto, o verso de Parmênides significaria que, entre o ser e o entendimento do ser, há uma espécie de contradição unitária, isto é, é preciso que ao mesmo tempo ambas as coisas saiam uma da outra e sejam unidas uma à outra.

«É preciso reconhecer   que na aurora   do pensamento, muito tempo antes que se viesse a formular um princípio de identidade, a própria identidade falara, numa sentença que afirmava: o pensamento e o ser têm lugar no mesmo e amparam-se mutuamente a partir deste mesmo.» [5]

Seria um erro   acreditar que podemos ir do Dasein   ao Sein. O homem   não possui o entendimento do ser, apenas porque o ser a ele se abre; é, pois, o Sein que explica a luz   que pode haver no Dasein. Heidegger apoia ainda esta interpretação no fragmento VIII, 34: tauton d’esti noein te kai ouneken esti noema, que traduz por: «O entendimento e a razão de ser do entendimento são a mesma coisa.» Por isso noein seria tomar uma saída privilegiada, que sieria a via do Ser. Mas Heidegger pretende ir mais longe e mostrar que o noein equivale finalmente à phisis, ou ao Logos   heraclitiano. Para tal, apoia-se no fragmento VI, I.


Ver online : PARMÊNIDES


[1F.-M. CLEVE, The Giants of Pre-Sophistic Greek Philosophy, t. II, p. 528.

[3Cf. HEIDEGGER, Essais et conférences, p. 166, 279, sq.; Qu’appelle-t-on penser?, p. 222; Introduction a la métaphysique, p. 150; Le principe d’identité (trad. Questions, I, A. Préau, trad., Paris, 1968, p. 257).

[4J. WAHL, loc. cit., p. 159 sq.

[5Le principe d’identité, op. cit., p. 261.