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Brun: O Logos em Heráclito

sexta-feira 25 de março de 2022

    

O Logos   que Heráclito invoca é um verbo transcendente de que o filósofo se faz intérprete. O Logos que se dirige a Heráclito é precisamente o Sentido, que desce até ele à maneira de mensagem a transmitir: «Se não é a mim  , mas ao Logos, que vós escutais, é sensato reconhecer   que tudo é um.» (fgt. 50)

O Logos é aquilo segundo o qual todas as coisas acontecem (fgt. 1), goVema o mundo (fgt. 72) e, além disso, abriga-se na alma   (fgt. 45). Mas a própria profundeza de que provém não no-lo torna completamente acessível: «Tu não poderás atingir os limites da alma, por muito longe que te conduza o teu caminho  , de tal modo é profundo o Logos que abriga.» (fgt. 45) Assemelha-se às palavras graves e sem disfarce da sibila, cuja «voz atravessa milhares de anos, graças ao deus   que a anima» (fgt. 92). Como o oráculo que fala sem dizer isto ou aquilo, o Logos transmite-nos o Sentido, competindo-nos decifrá-lo na medida das nossas forças. Sabemos que «o mestre cujo oráculo está em Delfos   nada diz ou esconde, apenas significa» (fgt. 93). As suas palavras permanecem misteriosas ao homem  , embora se lhe dirijam. O mesmo se passa nas relações do homem e do Logos: «Embora estreitamente unidos ao Logos que governa o mundo, afastam-se dele e acham estranho o que todos os dias encontram.» (fgt. 72) Embora presentes, os homens estão como que ausentes, assemelham-se a surdos (fgt. 34). Por isso Heráclito nos diz: «Os homens são incapazes de compreender o Logos eterno, quer antes de o ouvirem quer quando o ouvem pela primeira vez. Porque, embora todas as coisas aconteçam segundo o Logos, os homens parecem sem experiência, quando se aplicam a palavras ou actos semelhantes aos que exponho, distinguindo cada coisa segundo a natureza e dizendo o que é. Mas os outros homens esquecem o que fazem quando vigiam, como esquecem o que fazem enquanto dormem.» (fgt. 1)

O drama   da condição humana provém de que, «embora o Logos seja comum a todos, a maior parte vive como se possuíssem um pensamento   particular» (fgt. 2). Há, pois, uma presença   e um afastamento   daquilo através do qual o homem pode elevar-se   acima de si próprio para se compreender. Porque «a mansão do homem não abriga o conhecimento, mas a do deus possui-o» (fgt. 78).

Podemos então dizer que há um segredo do homem, no duplo sentido deste complemento de nome; há um segredo que pertence ao homem, mas tal segredo é também o segredo que lhe diz respeito. Infelizmente, os homens não sabem ouvir   nem dizer (fgt. 19), vivem na aparência (fgt. 17) e dela se alimentam; por consequência da sua incredulidade, a maior parte deis coisas divinas escapa-lhes (fgt. 86); no entanto, o pensamento é comum a todos (fgt. 113) e «é dado a todos os homens conhecer-se a si próprios» (fgt. 116). O essencial é obedecer à vontade do Uno (fgt. 33) e apoiar-se no que é comum a todos (fgt. 114). Mas, diz Heráclito explicitamente: «Se não esperas, não encontrarás o inesperado que é selado e impenetrável.» (fgt. 18)

O Logos é, pois, simultânea e paradoxalmente, um Sentido que nos é transcendente e uma significação que nos é imanente. O Logos situa-se no coração   da brecha pela qual o homem é dilacerado entre o Ser   perdido e a existência que o constitui; a sua condição só pode ser trágica. (Jean Brun  , «Pré-Socráticos  »)


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