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Heráclito

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Não sabemos praticamente nada da vida de Heráclito e as suas datas não podem mesmo ser fixadas com certeza  . Talvez possamos, ainda assim, admitir a asserção de Apolodoro segundo a qual teria o seu florescimento na LXIX Olimpíada, isto é, por volta de 500 a.C., quando Dario I era rei dos Persas.

Pertencia a uma família aristocrática muito ilustre de Éfeso e parece ter conservado uma espécie de desdém a respeito dos homens, pormenor que se encontra claramente expresso em alguns dos seus fragmentos, onde fustiga os hábitos políticos de seus concidadãos. Uma tradição   apresenta-o de humor melancólico e autores cristãos, portanto tardios, afirmam que teria sido perseguido por ateísmo.

Não se sabe muito bem que mestres poderia ter tido; fez-se dele discípulo   de Xenófanes  , mas parece que este último teria já deixado a Jônia quando Heráclito nasceu. Em todo o caso, deve ter lido o poema deste e conhecido as cosmologias dos Milésios, pois nos diz (fgt. 38) que Tales foi o primeiro astrônomo. Cita igualmente Pitágoras (fgt 81) e Hecateu. É provável que a obra de Heráclito fosse conhecida de Parmênides, que devia ser vinte e cinco   anos mais velho.

Não se sabe com certeza o título da obra de Heráclito; segundo Diógenes Laércio, que enumera vários, esse livro estaria dividido em três partes: uma tratando do universo  , a outra da política e a última da teologia.

Diógenes Laércio relata diversas lendas sem interesse   a respeito da morte de Heráclito, que deve ter ocorrido cerca de 470.

Conhece-se a obra de Heráclito somente através de curtos fragmentos; desde cedo uma reputação de grande obscuridade rodeou o filósofo, que acabou por ser cognominado de «Obscuro  » (skoteinos). Tal obscuridade resulta talvez do facto de o livro ter sido escrito em dialecto jônio e de numerosas questões gramaticais se levantarem a seu respeito, como já assinalava Aristóteles. No entanto, muitos pretendem que a obscuridade de Heráclito era desejada e que o Efésio se teria refugiado no hermetismo a fim de ser compreendido apenas de um pequeno número   de iniciados; o próprio Sócrates confessava que lhe seria necessário o auxílio de um bom «nadador de Delos  » para se permitir a leitura de tal livro. Heráclito era, pois, tido por um «fazedor de mitos»; mas talvez o fosse também, por assim dizer, contra sua vontade. Apresenta-se, com efeito, como o mensageiro de um Logos que o ultrapassa e de que é apenas o intérprete. Ora a sua voz, como a da sibila de que fala, atravessou os séculos para chegar até nós trazendo algo bem diferente das fórmulas gastas por um sentido único e compreendido uma vez por todas. Os fragmentos de Heráclito falam, por assim dizer, sem cessar e jamais deixarão de nos transmitir Sentido. Nenhuma interpretação   poderá esgotá-los, explicitá-los e pôr um ponto final no problema da sua interpretação. A sua própria concisão resulta do esforço que a expressão   teve de fazer para conseguir situar-se   entre o «tudo» e o «nada»: desligou-se do silêncio  , mas, não podendo dizer tudo, religou-se ao Sentido, que não esgota nas palavras que dele dimanam. Eis a razão   por que os fragmentos de Heráclito não cessam de nos falar: são testemunhos do tempo que vêm, por conseguinte, surgir   sempre no nosso. (Jean Brun  , «PRÉ-SOCRÁTICOS»)


Platão nem me ocorreu, porque, neste filósofo, «dialéctica», ou aponta simplesmente para a arte de dialogar, ou para o método de ascensão   à Ideia do Bem, que se efectua por divisão   e composição de conceitos. É, portanto, evidente   que, em qualquer das duas acepções da palavra, a dialéctica platônica nada tem que ver com Heráclito. Aliás, é impossível decidir a questão de saber se alguma vez Platão leu Heráclito, ou se, tendo-o lido, não quis desentendê-lo, servindo qualquer propósito que ignoramos, pois é precisamente dele que nasce a falsa noção   do phanta rheí [panta rei], que sabêmo-lo hoje, não tem qualquer lugar nos escritos autênticos do próprio Efésio. [DE SOUSA, Eudoro. Horizonte   e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 165]

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