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Do Mito à Razão (I): O Mito Grego

sexta-feira 25 de março de 2022

    

No decurso dos últimos cinquenta anos, a confiança   do Ocidente neste monopólio da razão   foi todavia abalada. A crise da física e da ciência contemporâneas minou os fundamentos — que se julgavam definitivos — da lógica   clássica. O contato com as grandes civilizações espiritualmente diferentes da nossa, como a da Índia e a da China, rompeu os quadros do humanismo tradicional. O Ocidente já não pode hoje considerar o seu pensamento como sendo o pensamento, nem saudar na aurora   da filosofia grega o nascer do sol do Espírito  . Em uma época em que se inquieta pelo seu futuro e em que põe em dúvida os seus princípios, o pensamento racional volta-se para as suas origens: interroga o seu passado   para se situar, para se compreender historicamente.

Duas datas escalonam este esforço. Em 1912, Cornford publica o seu livro From religion to philosophy, no qual pela primeira vez tenta estabelecer o liame que une o pensamento religioso e os começos do conhecimento racional. Só muito mais tarde, no fim de sua vida, voltou a ocupar-se   deste problema. E é em 1952 — nove anos após a sua morte— que aparecem, agrupadas sob o título de Principium   Sapientiae. The origins of greek philosophical thought, as páginas em que estabelece a origem   mítica e ritual da primeira filosofia grega.

Opondo-se a Burnet, Cornford mostra que a «física» jônia nada tem de comum com o que nós designamos por ciência: ignora inteiramente a experimentação e não é tampouco o produto da inteligência observando diretamente a natureza. Transpõe, numa forma laicizada e em um plano de pensamento mais abstrato, o sistema de representação que a religião elaborou. As cosmologias dos filósofos retomam e prolongam os mitos cosmogônicos. Dão uma resposta   ao mesmo tipo de pergunta: como pode emergir do caos   um mundo ordenado? Utilizam um material conceituai análogo: por detrás dos «elementos  » dos jônios, perfila-se a figura de antigas divindades da mitologia. Ao tornarem-se «natureza», os elementos despojaram-se do aspecto de deuses individualizados; mas permanecem as potências ativas, animadas e imperecíveis, sentidas ainda como divinas. O mundo de Homero  , ordenava-se por uma partilha, entre os deuses, dos domínios e das honras: a Zeus  , o céu «etéreo» (aither  , o fogo  ); a Hades  , a sombra «nevoenta» (aer  , o ar); a Posidão, o mar; aos três em comum, Gaia  , a terra, onde vivem e morrem os homens [1]. O cosmo dos jônios organiza-se segundo uma divisão   das províncias, uma partilha das estações entre forças opostas que se equilibram reciprocamente.

Não se trata de uma vaga analogia  . Entre a filosofia de um Anaximandro   e a Teogonia   de um poeta inspirado como Hesíodo, Cornford mostra que as estruturas se correspondem até no pormenor [2]. Mais ainda, o processo de elaboração conceituai que tende à construção naturalista do filósofo está já em gestação no hino religioso de glória   a Zeus que o poema hesíodico celebra. O mesmo tema mítico de ordenamento do mundo repete-se aí, com efeito, sob duas formas que traduzem níveis diferentes de abstração  .


[1Ilíada, XV, 189-194.

[2Principium sapientiae, Cambridge, 1952, pp. 159-224. A demonstração é retomada por George Thomson, Studies in ancient greek society, vol. II, The first philosophers, Londres, 1955, pp. 140-172.