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BQT 204c-206a: Os efeitos do amor

sexta-feira 25 de março de 2022

E eu lhe disse: — Muito bem, estrangeira! É belo o que dizes! Sendo porém tal a natureza do Amor, que proveito ele tem para os homens?

— Eis o que depois disso — respondeu-me — tentarei ensinar-te. Tal é de fato a sua natureza e tal a sua origem; e é do que é belo, como dizes. Ora, se alguém nos perguntasse: Em que é que é amor do que é belo o Amor, ó Sócrates e Diotima? ou mais claramente: Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?

— Tê-lo consigo — respondi-lhe.

— Mas essa resposta — dizia-me ela — ainda requer uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com o que é belo?

— Absolutamente — expliquei-lhe — eu não podia mais responder-lhe de pronto a essa pergunta.

— Mas é, disse ela, como se alguém tivesse mudado a questão e, usando o bom em vez do belo, perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; que é que ele ama?

— Tê-lo consigo — respondi-lhe.

— E que terá aquele que ficar com o que é bom?

— Isso eu posso — disse-lhe — mais facilmente responder: ele será feliz.

— É com efeito pela aquisição do que é bom, disse ela, que os felizes são felizes, e não mais é preciso ainda perguntar: E para que quer ser feliz aquele que o quer? Ao contrário, completa parece a resposta.

— É verdade o que dizes — tornei-lhe.

— E essa vontade então e esse amor, achas que é comum a todos os homens, e que todos querem ter sempre consigo o que é bom, ou que dizes?

— Isso — respondi-lhe — é comum a todos.

— E por que então, ó Sócrates, não são todos que dizemos que amam, se é que todos desejam a mesma coisa e sempre, mas sim que uns amam e outros não?

— Também eu — respondi-lhe — admiro-me.

— Mas não! Não te admires! — retrucou ela; — pois é porque destacamos do amor um certo aspecto e, aplicando-lhe o nome do todo, chamamo-lo de amor, enquanto para os outros aspectos servimo-nos de outros nomes.

— Como, por exemplo? Perguntei-lhe.

— Como o seguinte. Sabes que "poesia" é algo de múltiplo; pois toda causa de qualquer coisa passar do não-ser ao ser é “poesia”, de modo que as confecções de todas as artes são “poesias”, e todos os seus artesãos poetas.

— É verdade o que dizes.

— Todavia continuou ela — tu sabes que estes não são denominados poetas, mas tem outros nomes, enquanto que de toda a “poesia” uma única parcela foi destacada, a que se refere à música e aos versos, e com o nome do todo é denominada. Poesia é com efeito só isso que se chama, e os que têm essa parte da poesia, poetas.

— É verdade — disse-lhe.

— Pois assim também é com o amor. Em geral, todo esse desejo do que é bom e de ser feliz, eis o que é “o supremo e insidioso amor, para todo homem”, no entanto, enquanto uns, porque se voltam para ele por vários outros caminhos, ou pela riqueza ou pelo amor à ginástica ou à sabedoria, nem se diz que amam nem que são amantes, outros ao contrário, procedendo e empenhando-se numa só forma, detêm o nome do todo, de amor, de amar e de amantes.

— É bem provável que estejas dizendo a verdade — disse-lhe eu.

— E de fato corre um dito, continuou ela, segundo o qual são os que procuram a sua própria metade os que amam; o que eu digo porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo; pelo menos, meu amigo, se não se encontra este em bom estado, pois até os seus próprios pés e mãos querem os homens cortar, se lhes parece que o que é seu está ruim. Não é com efeito o que é seu, penso, que cada um estima, a não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens serão o bem; ou te parece que amam?

— Não, por Zeus — respondi-lhe.

— Será então — continuou — que é tão simples assim, dizer que os homens amam o bem?

— Sim — disse-lhe.

— E então? Não se deve acrescentar que é ter consigo o bem que eles amam?

— Deve-se.

— E sem dúvida — continuou — não apenas ter, mas sempre ter?

— Também isso se deve acrescentar.

— Em resumo então — disse ela — é o amor amor de consigo ter sempre o bem.

— Certíssimo — afirmei-lhe — o que dizes.