Página inicial > Antiguidade > BQT 174a-178a: Prólogo

BQT 174a-178a: Prólogo

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Disse ele que o encontrara Sócrates, banhado e calçado com as sandálias, o que poucas vezes fazia; perguntou-lhe então onde ia assim tão bonito.

Respondeu-lhe Sócrates: — Ao jantar em casa   de Agatão. Ontem eu o evitei, nas cerimônias da vitória, por medo da multidão; mas concordei em comparecer hoje. E eis por que me embelezei assim, a fim de ir belo à casa de um belo. E tu — disse ele — que tal te dispores a ir sem convite ao jantar?

— Como quiseres — tomou-lhe o outro.

Segue-me  , então — continuou Sócrates — e estraguemos o provérbio  , alterando-o assim: “A festins de bravos, bravos vão livremente.” Ora, Homero   parece não só estragar mas até desrespeitar este provérbio; pois tendo feito de Agamenão um homem   excepcionalmente bravo na guerra  , e de Menelau um “mole lanceiro”, no momento em que Agamenão fazia um sacrifício e se banqueteava, ele imaginou Menelau chegado sem convite, um mais fraco ao festim de um mais bravo.

Ao ouvir   isso o outro disse: — É provável, todavia, ó Sócrates, que não como tu dizes, mas como Homero, eu esteja para ir como um vulgar   ao festim de um sábio  , sem convite. Vê então, se me levas, o que deves dizer por mim  , pois não concordarei em chegar sem convite, mas sim convidado por ti.

— Pondo-nos os dois   a caminho — disse Sócrates — decidiremos o que dizer. Avante!

Após se entreterem em tais conversas, dizia Aristodemo, eles partem. Sócrates então, como que ocupando o seu espírito   consigo mesmo, caminhava atrasado, e como o outro se detivesse para aguardá-lo, ele lhe pede que avance. Chegado à casa de Agatão, encontra a porta   aberta e aí lhe ocorre, dizia ele, um incidente cômico. Pois logo vem-lhe ao encontro, lá de dentro, um dos servos, que o leva onde se reclinavam os outros, e assim ele os encontra no momento de se servirem; logo que o viu, Agatão exclamou: — Aristodemo! Em boa hora chegas para jantares conosco! Se vieste por algum outro motivo, deixa-o para depois, pois ontem eu te procurava para te convidar e não fui capaz de te ver. Mas... e Sócrates, como é que não no-lo trazes?

— Voltando-me então — prosseguiu ele — em parte alguma vejo Sócrates a me seguir; disse-lhe eu então que vinha com Sócrates, por ele convidado ao jantar.

— Muito bem fizeste — disse Agatão; — mas onde está esse homem?

— Há pouco ele vinha atrás de mim; eu próprio pergunto espantado onde estaria ele.

— Não vais procurar Sócrates e trazê-lo aqui, menino? — exclamou Agatão. — E tu, Aristodemo, reclina-te ao lado de Erixímaco.

Enquanto o servo   lhe faz ablução para que se ponha à mesa, vem um outro anunciar: — Esse Sócrates retirou-se em frente dos vizinhos e parou; por mais que eu o chame não quer entrar.

— É estranho o que dizes — exclamou Agatão; — vai chamá-lo! E não mo largues!

Disse então Aristodemo: Mas não! Deixai-o! É um hábito   seu esse: às vezes retira-se onde quer que se encontre, e fica parado. Virá logo porém, segundo creio. Não o incomodeis portanto, mas deixai-o.

— Pois bem, que assim se faça, se é teu parecer — tornou Agatão. — E vocês, meninos, atendam aos convivas. Vocês bem servem o que lhes apraz, quando ninguém os vigia, o que jamais fiz; agora portanto, como se também eu fosse por vocês convidado ao jantar, como estes outros, sirvam-nos a fim de que os louvemos.