Página inicial > Imaginal > Daumal (MA:3) – História dos homens ocos e da rosa amarga

Daumal (MA:3) – História dos homens ocos e da rosa amarga

terça-feira 13 de setembro de 2022

    

Gian Bruno Grosso

Os homens ocos habitam na pedra   e aí circulam como nômades em cavernas. No gelo eles se movimentam como bolhas com a forma de homens. Mas ao ar livre eles não se aventuram, porque o vento   os levaria embora.

Eles vivem em casas na pedra cujos muros são feitos de buracos, e em tendas no gelo cujas telas são feitas com bolhas. De dia ficam na pedra e à noite erram pelo gelo, onde dançam à luz da lua   cheia. Mas nunca veem o sol  , porque, senão, explodiriam.

O vazio   é seu único alimento, comem a forma dos cadáveres, embebedam-se com palavras vazias, com todas as palavras vazias que nós pronunciamos.

Algumas pessoas dizem que des sempre existiram e sempre existirão. Outros dizem que eles são os mortos. Outros ainda dizem que cada homem   vivo tem na montanha   seu homem oco, como a espada   tem sua bainha, como o pé tem sua pegada  , e que por ocasião da morte eles se reúnem.

Na aldeia das Cem Casas vivia o velho sacerdote-mágico Kissé e sua mulher Hulé-hulé. Eles tinham dois   filhos, dois gêmeos que ninguém distinguia, cujos nomes eram Mo e Ho. A própria mãe   os confundia. Para reconhecê-los, no dia da imposição dos nomes, haviam colocado em Mo um colar com uma pequena cruz e em Ho um colar com um pequeno anel  .

O velho Kissé tinha uma preocupação silenciosa. Segundo a tradição  , seu filho mais velho devia suceder-lhe. Mas quem era o mais velho? Será que ele tinha mesmo um primogênito?

Ao chegar à adolescência, Mo e Ho eram montanheses maduros. Eram conhecidos como os dois Atravessa-tudo. Um dia seu pai lhes disse: “Aquele dentre vós que me trouxer a rosa   amarga, a este eu transmitirei a grande sabedoria  ”.

A rosa amarga vive no topo dos mais altos picos. Aquele que comer dela, sempre que estiver para contar uma mentira  , quer para outros quer para si mesmo  , experimenta um ardor muito intenso na língua. Ele ainda pode contar mentiras, mas recebe um aviso. Algumas pessoa   já viram a rosa amarga: ela se parece, segundo o que contam, com uma espécie de grande líquen multicolorido, ou com um bando de borboletas. Mas ninguém conseguiu pegá-la, porque, ao menor estremecimento de medo nas suas proximidades, ela se intimida e recolhe-se para dentro da rocha. Ou, mesmo desejando-a, sempre aparece um leve   temor à ideia de possuí-la, e isso é suficiente para que ela desapareça imediatamente.

Para descrever uma ação como impossível, ou de uma empreitada absurda, diz-se: “é procurar a noite em pleno   dia”, ou “é querer iluminar o Sol para ver melhor”, ou ainda “é tentar agarrar a rosa amarga”.

Mo pegou suas cordas, sua marreta, seu machado e seus ganchos de feno. O sol surpreendeu-o sobre os flancos do pico chamado Buraco-nas-nuvens. As vezes como um lagarto, outras como uma aranha, ele sobe pelos altos paredões avermelhados, entre o branco das neves e o azul-escuro do céu. Pequenas nuvens velozes o escondem de tempos em tempos, em seguida o expõem repentinamente à luz. Eis que um pouco acima dele vemos a rosa amarga, brilhante com suas cores que não são as sete cores. Ele repete sem cessar o feitiço que seu pai lhe havia ensinado, e que o protege do medo.

Seria necessário aqui um grampo de fenda com um estribo de cordas para encarapitar-se sobre essa ponta rochosa. Ele golpeia com a marreta, e sua mão   afunda num buraco. Há um oco por baixo da pedra. Ele rompe a crosta do rochedo, e percebe que esse vazio tem a forma de um homem: um tronco, pernas, braços e fendas em forma de dedos estendidos como de terror, e é a cabeça   que ele golpeou com um golpe de martelo.

Um vento gelado atravessa a pedra. Mo matou um homem oco. Ele estremece, e a rosa amarga já se escondeu dentro da rocha.

Mo retorna para a aldeia e vai dizer ao pai: “Eu matei um homem oco. Mas eu vi a rosa amarga e amanhã vou buscá-la”.

O velho Kissé tornou-se sombrio. Ele via ao longe as desgraças avançando em procissão. Ele disse: “Cuide-se dos homens ocos. Ele vão querer vingar o seu morto. Em nosso mundo eles não podem entrar. Mas eles podem. alcançar a superfície das coisas”.

Na manhã do dia seguinte, Hulé-hulé, a mãe, soltou um grande grito, levantou-se e correu para a montanha. Aos pés da grande parede avermelhada, repousavam as roupas de Mo, suas cordas e seu martelo, e sua medalha com a cruz. Seu corpo não estava mais lá.

“Ho, meu filho!”, ela veio gritar, “meu filho, eles mataram seu irmão!”

Ho levanta-se, dentes   cerrados, a testa franzida. Ele pega seu machado e quer partir. O pai lhe diz: “Escute bem. Eis o que deve ser feito. Os homens ocos pegaram seu irmão. Eles o transformaram num homem oco. Ele vai querer fugir   deles. Nas beiras límpidas da Geleira ele deverá procurar pela luz. Pendure no pescoço a medalha dele junto com a sua. Vá na direção   dele e golpeie sua cabeça. Entre na forma de seu corpo. E Mo vai reviver entre nós. Não tenha medo de matar um morto”.

No gelo azulado da Geleira límpida, Ho observa atentamente. Será um jogo   de luz, ou serão seus olhos que se enganam, ou será que ele está mesmo vendo o que vê? Ele vê formas prateadas, como formas oleosas dentro da água, com pernas e braços. E eis seu irmão Mo, sua forma oca que foge e mil homens ocos o perseguem, mas eles têm medo da luz. A forma de Mo foge em direção à luz, ela sobe num grande bloco de gelo azulado e gira sobre si mesma como se procurasse por uma saída.

Ho precipita-se, apesar de seu sangue   que se congela e de seu coração   que se rompe — ele fala para o seu sangue e para o seu coração: “Não tenha medo de matar um morto”, e golpeia a cabeça rompendo o gelo. A forma de Mo torna-se imóvel  , Ho rompe o gelo e entra dentro da forma de seu irmão, como uma espada em sua bainha, como um pé dentro de sua pegada. Ele abre passagem, se sacode e tira suas pernas do molde   de gelo. E escuta a si mesmo pronunciando palavras numa língua que nunca conhecera. Ele sente que é Ho e que é Mo ao mesmo tempo. Todas as lembranças de Mo penetraram em sua memória: incluindo o caminho   do pico Buraco-nas-nuvens e o local da rosa amarga.

Usando no pescoço o anel e a cruz, ele aproxima-se de Hulé-hulé: “Mãe, você não terá mais dificuldade   para nos reconhecer  , Mo e Ho estão no mesmo corpo, eu sou   seu único filho Moho  ”.

O velho Kissé chorou duas lágrimas, seu rosto distendeu-se. Mas ainda em dúvida quis assegurar-se. Ele disse a Moho: “Você é meu único filho, Ho e Mo não mais podem ser diferenciados”.

Mas Moho respondeu com segurança: “Agora eu posso buscar a rosa amarga. Mo sabe o caminho, Ho conhece o gesto que deve ser feito. Senhor do medo, eu terei a flor do discernimento  . ”

Colheu a flor, recebeu o conhecimento e o velho Kissé pôde deixar este mundo.

Original

Les hommes-creux habitent dans là pierre, ils y circulent comme des cavernes voyageuses. Dans la glace ils se promènent comme des bulles en forme d’hommes. Mais dans l’air ils ne s’aventurent, car le vent les emporterait.

Ils ont des maisons dans la pierre, dont les murs sont faits de trous, et des tentes dans la glace, dont la toile est faite de bulles. Le jour ils restent dans la pierre, et la nuit errent dans la glace, où ils dansent à la pleine lune. Mais ne voient jamais le soleil, autrement ils éclateraient.

Ils ne mangent que du vide, ils mangent la forme des cadavres, ils s’enivrent de mots vides, de toutes les paroles vides que nous autres nous prononçons.

Certaines gens disent qu’ils furent toujours et seront toujours. D’autres disent qu’ils sont des morts. Et d’autres disent que chaque homme vivant a dans la montagne son homme-creux, comme l’épée a son fourreau, comme le pied a son empreinte, et qu’à la mort ils se rejoignent.

Au village des Cent-maisons vivait le vieux prêtre-magicien Kissé et sa femme Hulé-hulé. Ils avaient deux fils, deux jumeaux que rien ne distinguait, qui s’appelaient Mo et Ho. La mère elle-même les confondait. Pour les reconnaître, au jour de l’imposition des noms, on avait mis à Mo un collier portant une petite croix, à Ho un collier portant un petit anneau.

Le vieux Kissé avait un grand souci silencieux. Selon la coutume, son fils aîné devait lui succéder. Mais qui était son fils aîné ? Avait-il même un fils aîné ?

A l’âge d’adolescence, Mo et Ho étaient de finis   montagnards. On les appelait les deux Passe-partout. Un jour leur père leur dit : « Celui de vous deux qui me rapportera la Rose-amère, à celui-là je transmettrai le grand savoir. »

La Rose-amère se tient au sommet des plus hauts pics. Celui qui en a mangé, dès qu’il s’apprête à dire un mensonge, tout haut ou tout bas, la langue lui brûle. Il peut encore dire des mensonges, mais alors il est prévenu. Quelques personnes ont aperçu la Rose-amère : cela ressemble, à ce qu’elles racontent, à une sorte de gros lichen multicolore, ou à un essaim de papillons. Mais personne ne l’a pu prendre, car le moindre frémissement de peur auprès d’elle l’effarouche, et elle rentre dans le rocher. Or, si même on   la désire, on a toujours un peu peur de la posséder, et aussitôt elle disparaît.

Pour parler d’une action impossible, ou d’une entreprise absurde, on dit : « c’est chercher à voir la nuit en plein jour », ou : « c’est vouloir éclairer le soleil pour mieux le voir », ou encore : « c’est essayer d’attraper la Rose-amère ».

Mo a pris ses cordes et son marteau et sa hache et des crochets de fer. Le soleil l’a surpris aux flancs du pic Troue-les-nues. Comme un lézard parfois, et parfois comme une araignée, il s’élève le long de hautes parois rouges, entre le blanc des neiges et le bleu-noir du ciel. Les petits nuages rapides de temps en temps l’enveloppent, puis le rendent soudain à la lumière  . Et voici qu’un peu au-dessus de lui il voit la Rose-amère, brillante de couleurs qui ne sont pas des sept couleurs. Il se répète sans arrêt le charme que son père lui a enseigné, et qui protège de la peur.

Il faudrait un piton ici, avec un étrier de corde, pour enfourcher ce cheval de pierre cabré. Il frappe du marteau, et sa main s’enfonce dans un trou. Il y a un creux sous la pierre. Il brise la croûte de rocher, et voit que ce creux a la forme d’un homme : un torse, des jambes, des bras, et des creux en forme de doigts écartés comme de terreur, et c’est la tête qu’il a crevée d’un coup de marteau.

Un vent glacé passe sur la pierre. Mo a tué un homme-creux. Il a frémi, et la Rose-amère est rentrée dans le rocher.

Mo redescend au village, et il va dire à son père : « J’ai tué un homme-creux. Mais j’ai vu la Rose-amère, et demain j’irai la chercher. »

Le vieux Kissé devenait sombre. Il voyait au loin les malheurs s’avancer en procession. Il dit : « Prends garde aux hommes-creux. Ils voudront venger leur mort. Dans notre monde ils ne peuvent entrer. Mais jusqu’à la surface des choses ils peuvent venir. Méfie-toi de la surface des choses. »

A l’aube du lendemain, Hulé-hulé la mère poussa un grand cri et se leva et courut vers la montagne. Au pied de la grande muraille rouge, les vêtements de Mo reposaient, et ses cordes et son marteau, et sa médaille avec la croix. Et son corps n’était plus là.

« Ho, mon fils ! » vint-elle crier, « mon fils, ils ont tué ton frère ! »

Ho se dresse, les dents serrées, la peau de son crâne se rétrécissait. Il prend sa hache et veut partir. Le père lui dit : « Ecoute d’abord. Voici ce qu’il faut faire. Les hommes-creux ont pris ton frère. Ils l’ont changé en homme-creux. Il voudra leur échapper. Aux séracs du Glacier limpide il ira   chercher la lumière. Mets à ton cou sa médaille avec la tienne. Va vers lui et frappe à la tête. Entre dans la forme de son corps. Et Mo revivra parmi nous. N’aie pas peur de tuer un mort. »

Dans la glace bleue du Glacier limpide, Ho regarde de tous ses yeux. Est-ce la lumière qui joue, ou bien ses yeux qui se troublent, ou voit-il bien ce qu’il voit ? Il voit des formes argentées, comme des plongeurs huilés dans l’eau  , avec des jambes et des bras. Et voici son frère Mo, sa forme creuse qui s’enfuit, et mille hommes-creux le poursuivent, mais ils ont peur de la lumière. La forme de Mo fuit vers la lumière, elle monte dans un grand sérac bleu, et tourne sur elle-même comme pour chercher une porte.

Ho s’élance malgré son sang qui se caille et malgré son cœur qui se fend, – il dit à son sang, il dit à son cœur : « n’aie pas peur de tuer un mort », – il frappe à la tête en crevant la glace. La forme de Mo devient immobile, Ho fend la glace du sérac, et entre dans la forme de son frère, comme une épée dans son fourreau, comme un pied dans son empreinte. Il joue des coudes et se secoue, et tire ses jambes du moule de glace. Et il s’entend dire des paroles dans une langue qu’il n’a jamais parlée. Il sent qu’il est Ho, et qu’il est Mo en même temps. Tous les souvenirs de Mo sont entrés dans sa mémoire : avec le chemin du pic Troue-les-nues, et la demeure de la Rose-amère.

Avec au cou le cercle et la croix, il vient près de Hulé-hulé : « Mère, tu n’auras plus de peine à nous reconnaître, Mo et Ho sont dans le même corps, je suis ton seul fils Moho. »

Le vieux Kissé pleura deux larmes, son visage se déplia. Mais un doute encore il voulait trancher. Il dit à Moho : « Tu es mon seul fils, Ho et Mo n’ont plus à se distinguer. »

Mais Moho lui dit avec certitude : « Maintenant je peux atteindre la Rose-amère. Mo sait le chemin, Ho sait le geste à faire. Maître de la peur, j’aurai la fleur de discernement. »

Il cueillit la fleur, il eut le savoir, et le vieux Kissé put quitter ce monde.


Ver online : René Daumal