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Sof 260b-263d: Lugar do Não-ser no juízo e no discurso

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Estrangeiro – Se te dispuseres a acompanhar-me, talvez compreendas sem dificuldade  .

Teeteto   – De que jeito?

Estrangeiro – O não-ser se nos revelou como um gênero   entre os demais, distribuído entre todos os seres.

Teeteto – Certo.

Estrangeiro – Passemos, então, a considerar se ele se mistura com a opinião   e com o discurso.

Teeteto – Por quê?

Estrangeiro – Se não se misturar, a conclusão forçosa é que tudo é verdadeiro; misturando-se, torna-se possível haver opinião falsa e também discurso falso, pois pensar   e dizer que não é: eis o que a meu ver, constitui falsidade   no pensamento ou no discurso.

Teeteto – Isso mesmo.

Estrangeiro – Logo, se há falsidade, também há fraude.

Teeteto – Certo.

Estrangeiro – Ora, havendo fraude, forçosamente tudo terá de ficar cheio de simulacros, imagens e fantasias.

Teeteto – Como não?

Estrangeiro – Como dissemos, o sofista   se refugiou nesta região, porém nega de pé junto que possa haver falsidade, por não ser possível conceber nem exprimir o não-ser; o não-ser não participa absolutamente da existência.

Teeteto – Isso mesmo.

Estrangeiro – Porém agora ele se nos revelou como participante do ser, o que talvez leve   o sofista   a não prosseguir na discussão desse ponto, limitando-se a declarar que só algumas espécies participam do não-ser, outras não, pertencendo os discursos e as opiniões à classe das que não participam. Daí negar com o maior empenho a existência   daquela faculdade de criar .imagens e simulacros em que pretendemos confiná-lo, por não terem absolutamente comunicação com o ser, a opinião e o discurso; e uma vez que não há participação  , não poderá haver falsidade. Por tudo isso, precisaremos, de início, investigar a fundo o que seja discurso, opinião e imaginação  , para que, depois de conhecidos, possamos descobrir sua comunhão com o não-ser; uma vez esta patenteada, demonstrar   que a falsidade existe, e, demonstrada sua existência, amarrar nela o sofista, no caso de merecer ele semelhante castigo  , ou soltá-lo, para irmos procurá-lo noutro gênero.

Teeteto – Evidentemente, Estrangeiro, é muito certo tudo o que no começo dissemos a respeito do sofista: como caça, pertence a um gênero difícil de apanhar. Sabe cercar-se de toda espécie de problemas, outras tantas barreiras por detrás das quais ele se acolhe, que precisamos tomar de assalto para podermos chegar ao próprio homem  . Agora mesmo, mal acabamos de galgar a primeira estacada de sua defesa, a da não existência do não-ser ele nos opõe outra, para obrigar-nos a provar a existência da falsidade, tanto nos discursos como nas opiniões, e depois desse decerto uma terceira e uma quarta, parecendo mesmo que nunca chegaremos ao fim.

Estrangeiro – É preciso coragem  , Teeteto, sempre que se pode avançar, ainda que seja um pouquinho de cada vez. Quem desanimasse num caso desses, ante a escassez dos resultados, como se comportaria em conjunturas mais sérias, em que não assinalasse nenhum avanço ou mesmo fosse obrigado a recuar? Nesse passo como diz o provérbio  , um tipo assim nunca tomará cidade alguma. Porém, agora, amigo, com superarmos a dificuldade que formulaste, caiu em nosso poder a principal trincheira; tudo o mais será fácil e carente de importância.

Teeteto – Dizes bem.