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Sof 229d-231c: Esta obra não é do filósofo socrático?

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Estrangeiro – Quer parecer-me que neste ponto ela é divisível  .

Teeteto   – Onde?

Estrangeiro – No ensino pelo discurso, ao que parece, há um trecho mais áspero e outro mais liso.

Teeteto – E que qualificativo Ihes daremos?

Estrangeiro – Um deles é o método vetusto e venerável que nossos pais   geralmente seguiam na educação   dos filhos, e que ainda hoje muitos adotam quando os veem cometer alguma falta, misto moderado   de reprimenda e advertência, e que no todo poderia ser chamado exortação.

Teeteto – Isso mesmo.

Estrangeiro – Por outro lado, depois de maduras reflexões, há os que opinam que toda ignorância é involuntária e que nenhum dos que se julgam sábios se dispõe a aprender seja o que for daquilo em que se considera forte  . Assim, com todo seu trabalho  , o método educativo pela admoestação alcança resultados medíocres.

Teeteto – Pois têm razão   de pensar dessa maneira.

Estrangeiro – Daí, adotarem outro processo para se livrarem de semelhante presunção.

Teeteto – Qual é?

Estrangeiro – Formulam uma série de perguntas sobre assunto em que o interlocutor pensa responder com vantagem  , quando a verdade é que não diz coisa com coisa; depois, aproveitando-se de sua desorientação lhe rebatem facilmente as opiniões, que eles amontoam na crítica a que as submetem e, confrontando umas com as outras, mostram como se contradizem sobre os mesmos objetos em idênticas relações e igual sentido. Os que se veem assim confundidos, acabam por desgostar-se de si próprios e passam a mostrar-se   mais dóceis com relação aos outros; isso os livra do exagerado conceito que faziam deles mesmos, o que, de todas as liberações, é a mais agradável de se ouvir   e a de melhor efeito para o interessado. O que se dá, meu caro menino, é que esses purificadores pensam exatamente como os médicos do corpo, os quais acreditam que o corpo não tira benefício algum dos alimentos sem primeiro remover alguém o que o perturba. O mesmo pensam aqueles a respeito da alma  , que não pode colher vantagem dos ensinamentos ministrados, enquanto não for submetida a crítica rigorosa e a refutação não a fizer enrubescer de vergonha  , com livrá-la das falsas opiniões que servem de obstáculo   ao conhecimento e, assim purificada, levá-la à convicção   de que só sabe o que realmente sabe, nada mais do que isso.

Teeteto - Sem dúvida; essa é a melhor e mais sábia disposição  .

Estrangeiro - Por isso mesmo, Teeteto, devemos dizer que a refutação é a maior e mais eficiente purificação, sendo forçoso concluir que o indivíduo   que se eximir a esse processo, ainda mesmo que se trate do grande Rei, é impuro no mais alto grau, ignorante e deformado   naquilo em que deveria mostrar-se mais extreme e mais belo, caso queira alcançar a verdadeira felicidade  .

Teeteto - Perfeitamente.

Estrangeiro - E então? E os que praticam semelhante arte, como os denominaremos? Eu, de mim, tenho medo de considerá-los sofistas.

Teeteto - Por quê?

Estrangeiro - Para não lhes conferir demasiada honra  .

Teeteto - Mas a descrição se parece maravilhosamente com eles.

Estrangeiro - Como o lobo se parece com o cão, o animal   mais selvagem com o mais manso. Quem é precavido emprega com cautela semelhantes comparações; é gênero   escorregadio. Mas, que fique. Quero crer que não suscitaremos conflitos por pequena diferença   de palavras, se sempre os mantivermos sob vigilância   severa.

Teeteto - Com toda a probabilidade.

Estrangeiro - Destaquemos, então, da arte de se parar a de purificar; da de purificar, a parte que se relaciona com a alma; desta a do ensino, e da do ensino a arte da educação. Na arte da educação, conforme já vimos de relance, a refutação das vãs ostentações de sabedoria   nada mais é do que a sofística de nobre nascimento.

Teeteto - Façamos isso mesmo. Mas, em virtude de   já se nos ter ela apresentado sob tantos aspectos, confesso-me em dificuldade   para formular com verdade e segurança a definição certa do sofista  .

Estrangeiro – Compreendo que te encontres em dificuldade. Mas teremos de admitir que ele, também, não estará menos atrapalhado para achar maneira de escapar   de nossa argumentação. E muito certo o ditado: Não é fácil fugir de tudo. Por isso, apertemo-lo até o fim.

Teeteto – Falaste bem.


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