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Sof 222b-223b: O Sofista faz a caça aos jovens ricos

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Teeteto   – Que queres dizer com isso?

Estrangeiro – A caça dos marchadores compreende duas grandes divisões.

Teeteto – Quais são?

Estrangeiro – A dos animais   domesticados e a dos selvagens.

IX – Teeteto – Como! Há também caça aos animais domesticados?

Estrangeiro – Sem dúvida, no caso de incluirmos o homem   na classe desses animais. Formula a hipótese que te aprouver: ou não há animal domesticado ou há, real mente  , mas o homem é selvagem; ou então, se consideras o homem um animal domesticado, não admites que possa haver caça ao homem. Declara qual dessas hipóteses é mais do teu agrado.

Teeteto – Nesse caso, Estrangeiro, sou   levado a admitir que somos animais domesticados e declaro que há, rea1mente, uma caça ao homem.

Estrangeiro – Então, assentemos, desde já, que também é dupla a caça aos animais domesticados.

Teeteto – Em que apoias tua proposição?

Estrangeiro – Definamos a pirataria., o tráfico de escravos, a tirania e a arte bélica em geral como pertencentes à caça violenta.

Teeteto – Ótimo.

Estrangeiro – Os discursos do foro, das assembleias populares, a arte da conversação, englobaremos numa só classe, a que daremos o nome de arte da persuasão  .

Teeteto – Certo.

Estrangeiro – Declaremos, ainda, que a arte da persuasão   comporta dois   gêneros.

Teeteto – Quais serão?

Estrangeiro – Uma caça é particular, e a outra, pública.

Teeteto – São dois, realmente, os gêneros.

Estrangeiro – E na caça aos particulares, uma parte não é feita mediante salário  , e outra por meio de presentes?

Teeteto – Não compreendo.

Estrangeiro – Pelo que vejo, ainda não atentaste na caça aos amantes.

Teeteto – De que jeito?

Estrangeiro – É que, além de apanharem a presa, cumulam-na de presentes.

Teeteto – É muito certo o que dizes.

Estrangeiro – Demos, pois, a essa espécie o nome de arte de amar  .

Teeteto – Perfeitamente.

Estrangeiro – Porém da arte com base no salário, a modalidade que se manifesta nas conversas, com o simples fito de agradar, e que só usa o prazer como isca, sem nada mais exigir para sua subsistência, acho todos nós concordaríamos em qualificá-la como aduladora ou simplesmente arte recreativa.

Teeteto – Sem dúvida nenhuma.

Estrangeiro – E a modalidade que promete ensinar   a virtude por meio da conversação e que se faz pagar em espécie, não merecerá, como gênero   à parte, denominação especial?

Teeteto – Como não!

Estrangeiro – E que nome há de ser? Não te disporás a achá-lo?

Teeteto – E muito fácil. Acho que encontramos o sofista  . Designando-o desse modo, penso atribuir-lhe o nome mais acertado.

X – Estrangeiro – Assim, Teeteto, de acordo com presente   exposição, parece que essa parte da arte priativa, em sua variedade aquisitiva, de caça, de aos animais, aos animais vivos, aos de terra  , aos domésticos, ao homem, ao cidadão   particular, com imposição de salário e em troco de dinheiro  , aparentemente instrutiva, a caça que visa a apanhar mancebos ricos e de famílias ilustres, conforme indica a presente exposição, deverá ser denominada sofística.

Teeteto – Exato.