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Gobry: hyle

sexta-feira 25 de março de 2022

    

hýle   (he): matéria. Latim: matéria.

Derivado: hylikós / hylikos: material.

Substância   indeterminada comum aos corpos: uma árvore, um móvel e uma bengala têm como matéria comum a madeira  . A abstração   chega a imaginar uma matéria indiferenciada, que não é nem madeira, nem pedra  , nem metal, mas uma realidade sensível   de que são feitas todas as coisas.

Hyle significa, primitivamente, madeira, árvore, floresta, lenha. Os filósofos adotaram essa palavra para designar a matéria que, devido a seu caráter indiferenciado, não tinha denominação. A matéria opõe-se, por um lado, ao espírito   (noûs  ), que é a realidade imaterial por excelência, e, por outro, à forma (eidos  , morphé), que é o ato metafísico exercido sobre a matéria para diferenciá-la. A matéria primeira (próte hyle / prote   hyle) é a matéria em geral, considerada fora de sua forma; a matéria próxima (eskháte / eskhate) é a matéria da realidade singular, unida à forma (Aristóteles  , Met., H, 6). Outra oposição: a matéria sensível (aistheté / aisthete) e a matéria inteligível (noeté / noete), por exemplo a dos seres matemáticos (ibid., Z, 10).

Os primeiros pensadores jônios não usaram a palavra hyle, universal   demais para eles; mas, para encontrar uma matéria única na origem do mundo, eles privilegiaram ora a água, ora o ar, ora o fogo  , como Princípio (arkhé   / arche) material do mundo. Ocorre certo progresso com Anaximandro  , segundo chefe da escola de Mileto, quando ele propõe como princípio de todas as coisas o indeterminado   (ápeiron / apeiron), o que é outro nome da matéria.

O uso de hyle, a crermos em Aécio (I, XXIV, 3) e no Pseudo-Plutarco   (Epítome, I, 24), começa com Pitágoras  , que afirma que, por ser inerte (patheté / 7ia0rrxfj), a matéria está submetida à corrupção (phthorá). Diógenes Laércio (II, 6) afirma que Anaxágoras   foi quem «primeiro uniu o Espírito (noûs) à matéria».

Platão   não usa esse termo, mas Aristóteles o emprega abundantemente. A matéria é natureza (physis  ): é sujeito   (hypokeiméne) universal do movimento   (kínesis) e da mudança   (metabolé) (Fís., II, 1,193a). Ela é Ser em potência, que deve passar ao ato graças à forma (eidos) (Met., H, 1) e tornar-se assim substância (ibid., H, 2). Aliás, de certo modo, ela é substância (ousía), pois continua idêntica a si mesma ao longo das mudanças (ibid., H, 1); e a substância pode ser tomada em três sentidos: como matéria, forma e composto (De an., II, 2). A matéria é causa   (aitía); pois «chama-se causa, num primeiro sentido, a matéria imanente de que a coisa é feita» (Met., A, 2); pode-se até dizer que ela é causa primeira (ibid., H, 4); de qualquer modo, ela é uma das quatro causas das coisas sensíveis (Fís., II, 3,193b, 195a; 7,198b). Pode-se finalmente dar-lhe o nome de princípio: arkhé / arche, (ibid., I, 7,190b). Para os estoicos  , a substância de todos os seres é a matéria primeira (próte hyle) (D.L.,VII, 150).

Plotino   dedicou um tratado às Duas matérias (II, IV). São elas, por um lado, a matéria inteligível (noerá / noera), que é divina (theia / theia) e eterna (aídios   / aidios); por outro lado, a matéria sensível (aistheté / aisthete), que não tem essas qualidades. As duas são indeterminadas (ápeiros / apeiros) (II, IV, 7,14,15). Portanto, ela é privação   (stéresis / steresis) e, sendo privação, é não-ser (ouk ón   / ouk on); Plotino retoma esses temas em outro lugar: a matéria, na qualidade   de substratum (hypokemenon) físico, é não-ser (mè einai / me einai) e impassível (apathés   / apathes) (III, VI, 7). E, assim, ela é o mal (tò kakón / to kakon  ) (I,VIII, 7-11). Em outro lugar (II, V 2), Plotino trata da matéria como ser em potência (dynamis  ). [Gobry  ]