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Fédon 105b-107a — Prova da imortalidade, fundada sobre a teoria dos contrários

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Então, repete tudo isso do começo, continuou, porém não me responda com minhas próprias palavras, mas de outra forma, tomando-me como modelo. O que digo é que, além da resposta   certa que eu apresentei no começo, encontrou outra de não menor confiança   no que ficou dito depois. De fato, se me perguntasses: Que precisas haver no corpo para que ele fique quente? Não te daria a resposta, certa, sem dúvida, porém ingênua, que é o calor, porém outra muito mais aprimorada, com base em nossa exposição anterior  : fogo  . Como também se me perguntasses o que precisa haver no corpo, para que ele adoeça, não responderia que é a doença  , porém alguma febre. E no caso de perguntares o que precisa haver num número   para ser ímpar, não me referira a imparidade, mas à unidade  , e assim sucessivamente. Agora vê se apanhaste bem meu pensamento  .

À maravilha, respondeu.

Então, me digas, continuou, que precisa haver no corpo para que ele viva?

Alma  , respondeu.

E sempre terá de ser assim?

Por que não? Foi sua resposta.

Logo, tudo o de que a alma se apodera, a isso ela dá vida?

É o que ela faz, de fato, respondeu.

E porventura haverá alguma coisa contrária à vida? Ou não há?

Sem dúvida, respondeu.

Que é?

A morte.

De onde vem, que a alma nunca poderá aceitar   o contrário daquilo que ela sempre traz consigo; é o que se conclui de tudo o que dissemos até agora.

Conclusão certíssima, respondeu Cebete.

E então? O que não admite a ideia do par, que nome lhe demos agora mesmo?

Ímpar, respondeu.

E o que não recebe o justo, ou não recebe o harmônico?

Desarmônico, disse, ou injusto.

Muito bem. E o que não recebe a morte, como denominaremos?

Imortal, foi a sua resposta.

Ora, a alma não recebe a morte.

Não.

A alma é, pois, imortal?

Imortal.

Muito bem. Podemos afirmar, por conseguinte, que isso ficou demonstrado? Ou como te parece?

Ficou demonstrado à saciedade, Sócrates.

E agora, Cebete, continuou: se o ímpar fosse indestrutível por força das coisas, não teria também de ser indestrutível o três?

Como não?

E se o não-quente também fosse por necessidade   indestrutível, sempre que alguém aproximasse da neve o fogo, não se retiraria a neve intacta e sem derreter-se? Não pereceria, é claro, e por mais que ficasse exposta ao calor, não o receberia.

É muito certo, respondeu.

Como também, segundo penso, se o não-frio fosse indestrutível por natureza, e alguém aproximasse do fogo o frio, jamais o fogo se apagaria ou viria a fenecer, porém afastar-se-ia incólume.

Necessariamente, respondeu.

E não será também preciso falarmos nesses mesmo termos no que entende com o mortal  ? Se o imortal também for imperecível, a alma, sempre que a morte se aproximar dela, não poderá morrer; pois de acordo com o que dissemos antes, ela não admitirá a morte nem virá a morrer, da mesma forma que o três, conforme vimos, nunca poderá ser par, e com ele o ímpar, nem o fogo ficará frio nem o calor que há no fogo. Porém o que impede – poderia alguém objetar – que o ímpar, muito embora não fique par à aproximação do par, e sobre isso, já nos declaramos de acordo, venha, de fato, a perecer, por transformar-se em par? A quem tal objetasse, não poderíamos responder que não perece, pois o ímpar não é indestrutível. Porém se isso houvesse sido aceito antes por nós, fora fácil retorquir que à aproximação do para o ímpar e o três se retiram. Da mesma maneira responderíamos com respeito ao calor, ao fogo e a tudo o mais. Ou não?

Sem dúvida.

Sendo assim, agora, com relação ao imortal, uma vez admitido por nós dois   que também é imperecível, a alma, terá de ser por força imperecível. Caso contrário, precisaríamos lançar mão   de outro argumento  .

Não por causa   disso, retorquiu; dificilmente poderia haver que não admitisse a destruição, se o imortal, com ser eterno, fosse passível de acabar.

Quanto a Deus  , falou Sócrates, ao que suponho, e à ideia da vida e a tudo o mais que possa haver de imortal, todos estão de acordo em que nunca podem parecer.

Sim, por Zeus  , todos os homens, respondeu, e, com maioria de razões, os próprios deuses.

Era, uma vez que o imortal é imperecível, a alma, sendo imortal, não terá de ser, da mesma forma, imperecível?

Forçosamente.

Logo, como parece , ao aproximar-se dos homens a morte, o que neles for mortal terá de perecer, enquanto sua porção imortal cede o lugar à morte e continua sã e incorruptível  .

Claro.

É certíssimo, por conseguinte, Cebete, continuou, ser a alma imortal e imperecível, e existirem realmente nossas almas no Hades  .