Página inicial > Antiguidade > Fédon 77a-78b — Uma objeção: resposta de Sócrates

Fédon 77a-78b — Uma objeção: resposta de Sócrates

sexta-feira 25 de março de 2022

    

E a Cebete? Perguntou; precisas também convencer Cebete.

A ele também satisfaz, respondeu Símias, segundo penso, muito embora seja o homem   mais difícil de aceitar   a opinião dos outros. Mas creio que já esse encontra convencido de que nossa alma   existe antes de nascermos.

Porém Sócrates, que ela continue a existir depois de nossa morte é o que não me parece suficientemente demonstrado, pois ainda está de pé a opinião do vulgo a que Cebete se referiu há pouco: Quem sabe se no instante   preciso em que o homem morre, a alma se dispersa, sendo esse, justamente, o seu fim? Que impede, de fato que ela nasça algures e se constitua de outros elementos   e exista antes de alcançar o corpo humano, mas depois de entrar no corpo, quando tiver de separar-se dele, também acabe de uma vez e venha a destruir-se?

Falaste bem, Símias, observou Cebete. Parece que só foi demonstrado metade do que era de mister, a saber: que nossa alma existe antes de nascermos; ainda falta provar, por conseguinte, que depois de morrermos ela não existirá menos do que antes do nascimento. Só assim ficará completa a demonstração.

Foi completada agora mesmo, Símias e Cebete, observou Sócrates; bastará juntardes o presente   argumento   ao que admitimos antes, de que tudo o que vive só nasce do que é morto. Porque se as almas existem antes do nascimento e se, necessariamente, para começarem a vida e existirem, não poderão provir de outra parte a não ser da morte do que está morto, não será forçoso que continuem a existir depois da morte, para renascerem? Como disse, essa parte já foi demonstrada.

Porém verifico, Símias e Cebete, que ambos vós folgaríeis de examinar mais a fundo essa questão, pois, como as crianças, temeis, de fato, que o vento   arraste a alma e a disperse no momento em que ela deixa o corpo, máxime se na hora em que morre alguém o céu não estiver sereno e soprar vento forte  .

E Cebete, desatando a rir, Faze de conta, Sócrates, observou, que estamos com medo, e procura convencer-nos. Ou melhor: será preferível admitires, não que temos medo, mas que talvez haja dentro de nós uma criança   que se assusta com essas cosias. Trata, por conseguinte, de convencê-la a não ter medo da morte como do bicho-papão.

Para tanto, lhes falou Sócrates, será preciso exorcizá-la diariamente, até passar o medo.

E onde, Sócrates, perguntou, encontraremos um bom exorcizador, uma vez que nos abandonas?

A Hélade é grande, Cebete, replicou, e nela há muitos homens de merecimento. Grandes também sãos as gerações bárbaras, que precisareis esquadrinhar para encontrar um mágico nessas condições, sem olhar despesas nem fadiga  , pois em nada mais poderíeis aplicar o vosso dinheiro  . Mas convém promoverdes essa busca também entre vós outros, pois talvez não seja fácil encontrar quem se desincumba disso melhor do que vós mesmos.

É o que faremos, falou Cebete. Porém se levares gosto nisso, voltemos para o ponto em que ficamos antes.

Agrada-me a proposta, como não?


Ver online : SÓCRATES