Página inicial > Antiguidade > Fédon 68b-69e — A verdadeira virtude

Fédon 68b-69e — A verdadeira virtude

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Por consequência, continuou, ao vires um homem   revoltar-se no instante   de morrer  , não será isso prova suficiente de que não trata de um amante da sabedoria  , porém amante do corpo? Um indivíduo   nessas condições, também será, possivelmente, amante do dinheiro   ou da fama, se não o for de ambos ao mesmo tempo.

É exatamente como dizes, respondeu.

E a virtude denominada coragem  , Símias, prosseguiu, não assenta maravilhosamente bem nos indivíduos com essa disposição  ?

Sem dúvida, respondeu.

E a temperança, o que todo o mundo chama temperança: não deixar-se dominar pelos apetites, porém desprezá-los e revelar moderação, não será qualidade   apenas das pessoas que em grau eminentíssimo desdenham do corpo e vivem para a Filosofia?

Necessariamente, foi a resposta  .

Se considerares, prosseguiu, nos outros homens a coragem e a temperança, hás de achá-las mais do que absurdas.

Como assim, Sócrates?

Ignoras porventura, lhe disse, que na opinião   de toda a gente a morte se inclui entre os denominados males?

Sei disso, respondeu.

E não é pelo medo de um mal ainda maior que enfrentam a morte esses indivíduos corajosos, quando a enfrentam.

Certo.

Logo, é por medo e temor que os homens são corajosos, com exceção dos filósofos, muito embora se nos afigure paradoxal ser alguém corajoso por temor e pusilanimidade.

Perfeitamente.

E com os moderados desse tipo, não se passará a mesma coisa, isto é, serem moderados por algum desregramento? E conquanto asseveremos não ser isso possível, é o que se dá, realmente, com a temperança balofa dessa gente. De medo, apenas, de se privarem de certos prazeres por eles cobiçados, quando se abstêm de alguns é porque outros o dominam. E embora chamem intemperança o ser   vencido pelos prazeres, o que se dá com todos é que o domínio   sobre alguns prazeres se faz à custa de servirem a outros, o que vem a ser muito parecido com o que há pouco declarei, de ser, de algum modo, a intemperança que os deixa temperantes.

Parece que é assim mesmo.

Mas, meu bem aventurado Símias, essa não é a maneira de alcançar a virtude, trocar   uns prazeres por outros, tristezas, ou temores por temores de outras espécie, como trocamos em miúdos moeda de maior valor  . Só há uma moeda verdadeira, pela qual tudo isso deva ser trocado: a sabedoria. E só por troca com ela, ou com ela mesma, é que em verdade se compra ou se vende tudo isto: coragem, temperança e justiça, numa palavra, a verdadeira virtude, a par da sabedoria, pouco importando que se lhe associem ou dela se afastem prazeres ou temores e tudo o mais da mesma natureza. Separadas da sabedoria e permutadas entre si, todas elas não são mais do que sombra de virtude, servis em toda a linha e sem nada possuírem de verdadeiro nem são. A verdade em si consiste, precisamente, na purificação de tudo isso, não passando a temperança, a justiça, a coragem e a própria sabedoria de uma espécie de purificação. É muito provável que os instituidores de nossos mistérios não fossem falhos de merecimento e que desde muitos nos quisessem dar a entender por meio de sua linguagem obscura que a pessoa não iniciada nem purificada, ao chegar ao Hades   vai para um lamaçal, ao passo que o iniciado   e puro, ao chegar lá passa a morar com os deuses. Porque, como dizem os que tratam dos mistérios: muitos são os portadores de tirso, porém pouquíssimos os verdadeiros inspirados. E no meu modo de entender, são estes, apenas, os que se ocuparam com a filosofia, em sua verdadeira acepção, no número   dos quais procurei incluir-me, esforçando-me nesse sentido, por todos os modos  , a vida inteira e na medida do possível sem nada negligenciar. Se trabalhei como seria preciso e tirei disso algum proveito, é o que com segurança ficaremos sabendo no instante de lá chegarmos, se Deus   quiser, e dentro de pouco tempo, segundo creio. Eis aí, Símias e Cebete, minha defesa, a razão   de apartar-me nem revoltar-me, por estar convencido de que tanto lá como aqui encontrarei companheiros e mestres excelentes. O vulgo não me dará crédito; porém se a minha defesa vos pareceu mais convincente do que aos meus juízes atenienses, é tudo o que posso desejar.