Página inicial > Antiguidade > Fédon 62c-63a — Como se justifica a atitude do filósofo

Fédon 62c-63a — Como se justifica a atitude do filósofo

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Essa parte, observou Cebete, também me parece razoável. Porém o que afirmaste antes, sobre a disposição   do filósofo para morrer  , é um verdadeiro contra-senso  , Sócrates, se estiver certo o que dissemos há pouco, que Deus   cuida de nós e que somos propriedades dele. Que os indivíduos mais sábios se insurjam contra semelhante tutela e procurem evitá-la, quando a exercem, precisamente, os deuses, os melhores dirigentes, é o que não chego a compreender. Pois ninguém ousará dizer que saberá cuidar melhor de si mesmo  , uma vez em liberdade. Um indivíduo   insensato poderia raciocinar dessa maneira, por achar bom fugir   do amo, sem considerar que não se deve fugir do bem, mas ficar junto dele o maior tempo possível. Foge por carecer de senso. O indivíduo inteligente, pelo contrário, só deseja continuar junto de quem lhe seja superior. Por isso, Sócrates, o certo é, precisamente, o oposto do que foi dito há pouco: aos sábios é que fica bem insurgir-se contra a ideia da morte, e aos insensatos, exultar ante essa perspectiva.

Ao ouvi-lo assim falar, quis parecer-me que Sócrates se alegrava com a agudeza de Cebete; depois, voltando-se para nosso lado, falou: Cebete anda sempre à cata de argumentos, sem aceitar   de pronto a opinião   dos outros.

Ao que Símias observou: Porém quer parecer-me, Sócrates, que há bastante senso nas palavras de Cebete. Não se compreende, de fato, que indivíduos verdadeiramente sábios fujam de amos melhores do que eles e se alegrem com essa liberdade. A meu ver, o argumento   de Cebete vai dirigido contra ti, por aceitares à ligeira a ideia de deixar-nos, e também aos amos cuja superioridade   és o primeiro a proclamar.

Tens razão  , observou. Pelo que vejo, sois de parecer que preciso defender-me dessa acusação  , como o fiz no tribunal.

Perfeitamente, respondeu Símias.

Pois que seja, disse. Vejamos se diante de vós outros minha defesa saíra mais convincente do que a feita na frente dos juízes. O fato, Símias e Cebete, prosseguiu, é que se eu não acreditasse, primeiro, que vou para junto de outros deuses, sábios e bons, e, depois, para o lugar de homens falecidos muito melhores do que os daqui, cometeria uma grande erro   por não me insurgir contra a morte. Porém podes fiar que espero juntar  -me a homens de bem. Sobre esse ponto não me manifesto   com muita segurança; mas no que entende com minha transferência para junto de deuses que são excelentes amos: se há o que eu defenda com convicção   é precisamente isso. Esse motivo de não me revoltar a ideia da morte. Pelo contrário, tenho esperança   de que alguma coisa há para os mortos, e, de acordo com antiga tradição  , muito melhor para os bons do que para os maus.

Como assim, Sócrates, perguntou Símias; com semelhante convicção queres deixar-nos sem no-la dar a conhecer? Eu, pelo menos, acho que se trata de algo de grande relevância para nós todos. Ao mesmo tempo, com isso farás a tu a defesa, se com o que disseres conseguires convencer-nos.

É o que vou tentar, continuou; porém primeiro vejamos o que o nosso Critão   há tanto tempo quer dizer-me.

Trata-se apenas do seguinte, Sócrates, falou Critão: é que há muito vem insistido comigo a pessoa encarregada de dar-te o veneno, para avisar-te de que deves conversar o menos possível. Conversa muito animada esquenta, é o que ele afirma, e isso prejudica a ação da droga. Do contrário, já tem acontecido precisar tomar duas ou três doses quem se comporta desse jeito.

É Sócrates: Manda-o passear! disse. E que prepare dose dupla, e até tripla, se for preciso.

Eu já sabia mais ou menos o que irias responder, observou Critão; mas o homem   não me dava sossego.

Deixa-o, disse.