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Filebo 41a-42c — Prazeres e dores sendo da ordem do Infinito

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Protarco – Não, Sócrates; é justamente o contrário. Dificilmente alguém afirmará que as dores e os prazeres são ruins por serem falsos, mas por implicarem grandes e numerosos vícios  .

Sócrates – Mais para diante, se julgarmos conveniente, falaremos desses prazeres ruins que devem a ruindade própria a alguma corrupção. Por enquanto, tratemos apenas dos prazeres falsos de outro modo que, por vezes em grande número  , se formam em nossa alma  . Talvez isso seja de alguma utilidade   para nossos julgamentos.

Protarco – Como não? Contanto que haja prazeres desse tipo.

Sócrates – Há sim, Protarco; pelo menos em minha maneira de pensar  . E enquanto permanecer em nós essa convicção  , não poderá deixar de ser analisada.

Protarco – Muito bem.

XXV – Sócrates – Copiando a tática dos atletas, tomemos posição   em torno desse argumento  .

Protarco – Sim, façamos isso mesmo.

Sócrates – Se ainda estamos lembrados, dissemos há pouco que, quando os prazeres – tal foi o nome que lhes demos – existem em nós, o corpo se conserva a parte e completamente separado da alma em suas afecções.

Protarco – Sim, ainda me lembro; foi dito isso mesmo.

Sócrates – Como também afirmamos ser a alma quem deseja o que se opõe às condições do corpo, e que é o corpo a fonte   tanto dos prazeres como das dores.

Protarco – Isso mesmo.

Sócrates – Conclui agora o que se deduz de tudo isso.

Protarco – Podes falar.

Sócrates – Em tais casos, acontece o seguinte: as dores e os prazeres existem simultaneamente em nós, com as correspondentes sensações, que se opõem uma às outras, conforme já o demonstramos.

Protarco – É o que parece, realmente.

Sócrates – E também não foi dito o seguinte, cuja verdade, aliás, ficou reconhecida por nós dois  ?

Protarco – De que se trata?

Sócrates – Que ambos, o prazer e a dor  , admitem o mais e o menos e pertencem ao gênero   do infinito  .

Protarco- Sim, dissemos; e daí?

Sócrates – Qual é o caminho   para julgar com acerto esse ponto?

Protarco – Qual será e como o iniciaremos?

Sócrates – Sempre que nos dispomos em semelhantes casos não partimos do propósito de distinguir   em todos qual é comparativamente maior ou menor, mais intenso ou mais forte  , confrontando dor   com prazer, dor com dor e prazer com prazer?

Protarco – Exato; nem é outro o propósito de nosso julgamento  .

Sócrates – Mas como! No caso da vista, por exemplo, a verdade se altera quando se trata de ver de longe ou de perto, o que nos induz a julgamentos falsos. E o mesmo não se passará com as dores e os prazeres?

Protarco – Em escala muito maior, Sócrates.

Sócrates – Sendo assim, o que dissemos agora é precisamente o contrário do que afirmamos há pouco.

Protarco – Que queres dizer com isso?

Sócrates – Então, com serem verdadeiras ou falsas opiniões , comunicavam essa mesmas qualidades às dores e aos prazeres.

Protarco – É muito certo.

Sócrates – Mas agora, pelo fato de parecerem mudáveis as dores e os prazeres, conforme sejam vistos de mais longe ou mais perto, sempre que confrontados entre si, os prazeres nos parecem, em relação às dores, maiores e mais violentos, ocorrendo com as dores precisamente o contrário, em paralelo com os prazeres.

Protarco – Necessariamente terá de ser assim mesmo, pelas razões expostas.

Sócrates – Daí parecerem ambos maiores ou menores do que são. Ora, se cortares de ambos a parte que aparece, mas na realidade não é, não somente não dirás que essa aparência seja verdadeira, como não terás o ousio de afirmar que é verdadeira a parte restante da dor ou do prazer.

Protarco – Não, de fato.