Página inicial > Antiguidade > Reale: O «daimonion» socrático

Reale: O «daimonion» socrático

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Entre as acusações contra Sócrates estava também a de que era culpado «de introduzir novos daimónia», novas entidades divinas. Em sua Apologia  , Sócrates diz o seguinte a propósito da questão: «A razão   (...) é aquela que muitas vezes e em diversas circunstâncias   ouvistes dizer, ou seja, que em mim   se verifica algo de divino e demoníaco, precisamente aquilo que Melito (o acusador), jocosamente, escreveu no seu ato de acusação  : é como uma voz que se faz ouvir   dentro de mim desde quando era menino e que, quando se faz ouvir, sempre me detém de fazer aquilo que estou a ponto de fazer, mas que nunca me exorta a fazer.» Portanto, o daimonion   socrático era «uma voz divina» que lhe vetava determinadas coisas: ele o interpretava como uma espécie de sortilégio, que o salvou várias vezes dos perigos ou de experiências negativas.

Os estudiosos ficaram muito perplexo diante desse daimonion. E as exegeses que dele foram propostas são as mais díspares. Alguns pensaram que Sócrates estivesse ironizando, outros falaram de voz da consciência  , outros do sentimento   que perpassa o gênio. E até se poderia incomodar a psiquiatria para entender a «voz divina» como fato patológico ou então chamar à cena as categorias da psicanálise. Mas é claro que, assim fazendo, estamos caindo no arbítrio  .

Se quisermos nos limitar aos fatos, devemos raciocinar como segue.

Em primeiro lugar, deve-se destacar que o daimonion não tem nada a ver com o campo   das verdades filosóficas. Com efeito, a «voz divina» interior não revela em absoluto a Sócrates a «sabedoria   humana» de que ele é portador, nem qualquer das propostas gerais ou particulares de sua ética. Para Sócrates, os princípios filosóficos extraem sua validade do logos   e não da divina revelação.

Em segundo lugar, Sócrates não relacionou com o daimonion nem mesmo a sua opção moral de fundo, que, no entanto, ele considera provir de uma ordem   divina: «Cabe-me fazer isto (fazer filosofia e exortar   os homens a cuidarem da alma  ) porque fui ordenado por Deus  , com vaticínios e sonhos, em suma, com qualquer daqueles modos   pelos quais a sorte divina ordena, por vezes, o homem   a fazer alguma coisa.» Já o daimonion não lhe «ordenava», mas lhe «vetava».

Excluídos os campos da filosofia e da opção ética de fundo, resta apenas o campo dos eventos e ações particulares. E é exatamente a esse campo que se referem todos os textos à disposição   sobre o daimonion socrático. Trata-se, portanto, de um fato que diz respeito ao indivíduo Sócrates e aos acontecimentos particulares de sua existência: era um «sinal» que, como dissemos, o impedia de fazer coisas particulares que lhe teriam acarretado prejuízos. A coisa da qual o afastou mais firmemente foi a participação   ativa na vida política, sobre o que ele diz: «Vós o sabeis bem, atenienses, que, se há tempos eu me houvesse metido a ocupar-me dos negócios do Estado (coisa da qual o demônio me afasta), há tempos eu já estaria morto e não teria feito nada de útil  , nem para vós nem para mim.»

Em suma, o daimonion é algo que diz respeito à excepcional personalidade de Sócrates, devendo ser colocado no mesmo plano de certos momentos de concentração muito intensa, bastante próximos aos arrebatamentos de êxtase em que Sócrates mergulhava algumas vezes e que duravam longamente, coisa da qual nossas fontes falam expressamente. Portanto, o daimonion não deve ser relacionado com o pensamento e a filosofia de Sócrates: ele próprio manteve as duas coisas distintas e separadas—e o mesmo deve fazer o intérprete.


Ver online : SÓCRATES