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Reale: Sócrates e a descoberta da essência do homem (o homem é a sua psyche)

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Depois de um período de tempo em que ouviu a palavra dos últimos naturalistas, mas sem se considerar de modo algum satisfeito, como já dissemos, Sócrates concentrou definitivamente o seu interesse   na problemática do homem  . Procurando resolver os problemas do «princípio» e da physis  , os naturalistas se contradisseram a ponto de sustentar   tudo e o contrário de tudo (o ser   é uno, o ser é múltiplo; nada se move, tudo se move; nada se gera nem se destrói, tudo se gera e se destrói), o que significa que se propuseram problemas insolúveis para o homem. Consequentemente, ele se concentrou no homem, como os sofistas, mas, ao contrário deles, soube chegar ao fundo da questão, a tal ponto que chegou a admitir, malgrado a sua afirmação geral de não-saber (da qual falaremos adiante), que era sábio   nessa matéria: «Na verdade, atenienses, por nenhuma outra razão eu granjeei este nome senão por causa   de certa sabedoria  . E que sabedoria é essa? Essa sabedoria é precisamente a sabedoria humana (ou seja, a sabedoria que o homem pode ter sobre o homem)—e pode ser que, dessa sabedoria, eu seja sábio.»

Os naturalistas procuraram responder à seguinte questão: «O que é a natureza ou a realidade última das coisas?» Sócrates, porém, procura responder à questão: «O que é a natureza ou realidade última do homem?», ou seja, «o que é a essência   do homem?».

Finalmente, a resposta   é precisa e inequívoca: o homem é a sua alma  , enquanto é precisamente a sua alma que o distingue especificamente de qualquer outra coisa. E por «alma» Sócrates entende a nossa razão   e a sede de nossa atividade   pensante e eticamente operante. Em breve: para Sócrates, a alma é o eu   consciente, ou seja, a consciência   e a personalidade intelectual e moral. Consequentemente, com essa sua descoberta, como foi justamente destacado, «Sócrates criou a tradição   moral e intelectual da qual a Europa sempre viveu desde então» (A.E. Taylor). E um dos maiores historiadores do pensamento grego explicitou ainda mais: «Para nós, a palavra alma, graças às correntes espirituais pelas quais passou à história, soa sempre com uma acentuação ética e religiosa. Assim como as palavras serviço de Deus   e cuidar da alma (estas também usadas por Sócrates), ela tem uma conotação cristã. Mas ela assumiu esse elevado significado pela primeira vez na pregação persuasiva de Sócrates» (W. Jaeger  ).

E evidente   que, se a essência do homem é a alma, cuidar de si mesmo   significa cuidar da própria alma mais do que do corpo. E ensinar   os homens a cuidarem da própria alma é a tarefa suprema do educador, precisamente a tarefa que Sócrates considera ter recebido de Deus, como se lê na Apologia  : «Que é isto (...) é a ordem   de Deus. E estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência a Deus. Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar do corpo, nem das riquezas, nem de qualquer outra coisa antes e mais do que da alma, de modo que ela se torne ótima e virtuosíssima, e de que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude que nasce a riqueza   e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto individualmente para os cidadãos como para o Estado  

Um dos raciocínios fundamentais feitos por Sócrates para provar essa tese é o seguinte: uma coisa é o «instrumento» que se usa e outra é o «sujeito» que usa o instrumento. Ora, o homem usa o seu próprio corpo como um instrumento, o que significa que o sujeito, que é o homem, e o instrumento, que é o corpo, são coisas distintas. Assim, à pergunta «o que é o homem?», não se pode responder que é o seu corpo, mas sim que é «aquilo que se serve do corpo». Mas «o que se serve do corpo é a psyche, a alma (= a inteligência)», de modo que a conclusão é inevitável: «A alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte: Conhece-te a ti mesmo  .» Nesse ponto, Sócrates já havia levado sua doutrina   a tal ponto de consciência e de reflexão   crítica que chegou a deduzir todas as consequências que logicamente brotam dela, como veremos.


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