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gnostikos

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Madeleine Scopello  , resumo adaptado de seu livro Les gnostiques

O itinerário do gnóstico (gnostikos), em grego; aquele que conhece) está perfeitamente resumido neste questionamento de Teodoto (Excerpta ex Theodoto), mestre gnóstico do século II, da corrente de Valentino: «Quem somos? O que nos tornamos? Onde estamos? Onde fomos jogados? Onde vamos?». Esta preocupação de se conhecer e de investigar suas próprias origens é o leitmotiv de toda especulação   gnóstica.

O mundo é o resultado de uma armadilha disposta por poderes maus. O gnóstico, e ele somente, pode dela se subtrair graças à centelha de conhecimento (gnosis  , em grego) encerrada no mais profundo dele mesmo. É um dom divino reservado a eleitos, que lhe permite se unir a Deus   ou melhor reintegrá-lo.

Um texto gnóstico denominado o Estrangeiro pertencendo ao conjunto   de documentos da Biblioteca de Nag Hammadi  , expões este modo de pensar  . É a revelação de um anjo  , Youel, a um «iniciado», denominado Allogene? (gr. allogene = estrangeiro, de outra estirpe): «Youel me disse: ’Todos não podem entender estas proposições, ó Allogene. Tu foste revestido de um grande poder pelo Pai   do Todo (...) a fim de que pudesse discernir (diakrisis  ) o que é difícil a discernir e conhecer, aquilo que desconhecido para a maior parte. A fim de que remontes Àquele que é teu’».

O conteúdo das revelações e a participação   no conhecimento transformam o iniciado  , o tornam divino: «Eu retornei a mim   mesmo, tendo contemplado   a luz   ao redor de mim e o bem que estava em mim. Eu me tornei Deus, disse Allogene».

Compreende-se porque esta religião gnóstica, como denomina Hans Jonas   poderia ter de desagradável, até de arrogante, aos olhos das autoridades eclesiásticas da época. O cristianismo queria ser uma religião para todos. A salvação   era proposta a todos na predicação pública do Evangelho. A religião gnóstica, ao contrário, pretendia ser uma religião reservada a eleitos: não se escolhia ser gnóstico. Se é desde sempre. Não há, pelo menos em teoria, conversão ao gnosticismo.

Os Padres da Igreja   se preocuparam em responder a estes teólogos que pretendiam ser os únicos herdeiros das palavras ocultas de Jesus  .

Convencido de ser os únicos depositários das tradições secretas, os gnósticos compuseram uma vasta literatura que se interroga sobre as relações entre o homem  , o universo   e Deus. Mitos complexos e sedutores põem em cena o drama   da criação. Uma interpretação   surpreendente é dada do relato do Gênese: o deus do AT não é a seus olhos um deus de justiça mas um deus de engodo pois prendeu o homem às pesadas cadeias do destino para lhe fazer esquecer suas origens divinas. O deus verdadeiro, ele, é estrangeiro à criação. Ele se mantem solitário   em um abismo   de luz.

O desprezo do mundo e da criação ditou aos gnósticos uma ética posta sob o signo   do desapego  . A recusa do casamento   e da procriação é um dos aspectos mais controvertidos. No entanto, não poderia ser levado ao extremo, sob pena   de fazer desaparecer, em algumas gerações, toda a comunidade de fé gnóstica. Um jogo   sutil   decorre distro entre proselitismo e consciência   elitista.

As comunidades gnósticas se situaram à margem da Igreja e do Estado  . Elas foram perseguidas por uma e pelo outro, até seu quase-desaparecimento. Todavia, por caminhos subterrâneos difíceis de retraçar, a essência   do gnosticismo sobreviveu. A aspiração dos autores gnósticos pelo Absoluto, seu desejo de um conhecimento último conservam uma significação e um valor   no mundo de hoje.