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aitia

sexta-feira 25 de março de 2022

    

aitía   (he): causa. Latim: causa. Mais raramente: aítion (tó) / aition (to)

Esse substantivo feminino   e esse adjetivo neutro substantivado, usados pelos filósofos a partir de Platão  , derivam do qualificativo aítios (aitios), que significa «autor de»: um homem   de bem é autor de uma ação virtuosa, em geral de uma vitória. É desse termo que vem a palavra francesa étiologie (etiologia): procura das causas.

Segundo seu hábito  , Aristóteles   procurou definir   as causas, e não a causa. Na Física (II, 7, 198a), chega ao célebre quarteto que será adotado no século XIII pelos escolásticos:

— Matéria (hyle  ), ou seja, aquilo de onde saiu a coisa; por exemplo, o bronze para a estátua.

— Forma (eîdos), ou seja, a própria natureza da coisa; por exemplo, a figura da estátua.

— Motor (kinêsan), ou seja, o autor da mudança  ; por exemplo, o escultor.

— Finalidade (tò hoû héneka), ou seja, aquilo por que ocorre a mudança  ; por exemplo, a razão   que impele o escultor a esculpir.

Aristóteles reincide na Metafísica  , fazendo menção a aitía em seu apanhado histórico (A, 3), dedicando-lhe uma nota em seu vocabulário filosófico (A, 2) e no livro VIII sobre a matéria (H, 4). Alexandre de Afrodisia retoma essa exposição em seu tratado Do destino (III).

A noção   de causa primeira (aitía próte) ocupa lugar importante entre os filósofos gregos. Confunde-se com a noção de princípio (arkhé  ), mas aparece sob diferentes formas. Assim, em Fédon   (97c), Sócrates   espera encontrar «a causa de todas as coisas» (aítion pánton). Em Timeu   (29a), Platão considera que o mundo, que é a mais bela das coisas, requer um autor que seja a mais perfeita das causas (áriston tôn aitiôn). Distingue então duas espécies de causa: aquelas que, pela ação da inteligência, produzem o que é bom e belo; e aquelas que, privadas de racionalidade, agem por acaso (48e).

Do mesmo modo, Aristóteles constata que o filósofo, para explicar o conjunto   das causas segundas, deverá remontar até a causa eficiente primeira, que ele chamará de primeiro Motor (Fís., II, 3,195b); este, confundindo-se com a Inteligência e o Bem, é ao mesmo tempo a causa final última. Desse modo, Deus   é o primeiro Princípio (Met., A, 6-7,1071b-1072b).

Plotino   concorda em parte com Aristóteles quando afirma que tudo ocorre por causas, e causas naturais; e que essa ordem   e essa razão se estendem às mínimas coisas (IV, III, 16). Mas difere dele em sua classificação das causas: é preciso fazer a distinção entre causa dos seres e causa dos acontecimentos. No que se refere à primeira, há duas espécies de ser: aqueles que não têm causa, porque são eternos, e aqueles que têm sua causa nesses seres eternos (III, I, 1). Quanto aos acontecimentos, são de duas espécies: aqueles que são produzidos fora de nós, por causas exteriores à nossa vontade, fazendo parte da ordem natural, e aqueles que provêm de nossa interioridade   (III, 1,10). [Gobry  ]


O conhecimento de uma coisa, qualquer que seja, supõe que se possa lhe atribuir uma causa, cuja definição permitirá não somente explicar porque esta coisa é o que ela é, mas ainda compreender porque esta coisa é o que ela é, o que é sua razão de ser. A única causa digna deste nome e desta dupla função é aquela cuja definição permite compreender o que é uma coisa qualquer. Enquanto se atém com os físicos a uma explicação pelas causa físicas (dizendo por exemplo que uma pedra   é pesada em virtude dos elementos   que a constituem), não se diz o que é uma coisa, não se faz conhecê-la. Eis porque Platão subordina a definição das causas físicas àquelas das causas finais, identificando a causa de uma coisa a sua razão. (Luc Brisson  )