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Brun: A Alegoria da Caverna

sexta-feira 25 de março de 2022

    

A alegoria   da caverna  

O livro VII da República   inicia-se com um dos textos mais célebres de Platão  : a alegoria da caverna. Sócrates   pede a Glauco que imagine homens presos numa caverna e de costas para a entrada de onde vem a luz  ; por trás brilha, ao longe, uma lareira acesa num ponto alto; entre esse lume e os prisioneiros existe uma estrada alta e ao longo dessa estrada corre um murinho. Imaginemos agora que homens vão andando ao longo dessa estrada, levando objetos de todas as formas, assim como figuras de homens e animais   que ultrapassam a altura do muro, uns falam, os outros seguem calados. Os prisioneiros da caverna, podendo apenas ver as sombras que se projetam no fundo da sua prisão  , tomam-nas pela realidade e atribuem-lhes palavras que ouvem pronunciar. Esses prisioneiros são a nossa imagem: a prisão é o nosso mundo visível  , as verdadeiras realidades constituem o mundo inteligível e, no extremo desse mundo inteligível, está a ideia do Bem que só dificilmente se apreende mas que está na origem de toda a luz. Para passar desse mundo visível   para esse mundo inteligível, a nossa alma   tem de operar um movimento   de conversão e de regresso ao seu princípio. Mas a coisa é difícil, pois os nossos olhos estão habituados à penumbra da nossa prisão e a passagem da escuridão para a luz cega-nos; por isso, se se libertar esses prisioneiros, a maioria tentará voltar para o fundo da sua prisão e amaldiçoará aqueles que os quiseram libertar.

Se a alegoria é clara, levanta no entanto muitas dificuldades, que nascem, no fundo, de más interpretações. O contra-senso   mais comum é o que leva a crer que Platão pensa segundo um dualismo   no qual se deve distinguir   por um lado um mundo das ideias e por outro um mundo sensível; assim, Aristóteles   censurou várias vezes Platão por ter «separado as ideias». Dir-se-á então que a realidade inteligível apenas serve para duplicar inutilmente a realidade sensível e que estamos na presença   de duas realidades sem podermos compreender como se opera a passagem de uma à outra.

Importa ver que esses dois mundos estão ao mesmo tempo separados e unidos. Como diz muito bem J. Lagneau: «O mundo inteligível não é uma espécie de reprodução ou de exemplar  , em sentido próprio, do mundo sensível, mas antes esse mundo visto pelo espírito   através de si próprio, ou seja, iluminado pela moral, tomando um sentido e uma realidade superior graças à relação que possui com o Bem, concebido, desejado e posicionado como o único ser digno desse nome, independente, fundamentado em si.» [1] Joseph Moreau diz do platonismo que «pode ser visto como um realismo; o que não exclui que possa ser visto ao mesmo tempo como um idealismo» [2]. Por aqui se pode entender que o realismo de Platão nada   tem que ver com o realismo ingênuo que leva ao subjetivismo e ao mobilismo empíricos, para os quais tudo é verdadeiro e nada finalmente é verdadeiro; o realismo de Platão é um realismo do inteligível que ergue a ideia em realidade, e nisto distingue-se do idealismo que leva a realidade à ideia. Se podemos falar de um realismo platônico, é na medida em que os objetos sensíveis não são realidades mas aparências, semelhanças de ideias. Existe ao mesmo tempo em Platão um realismo ontológico, porque «Deus   é a medida de todas as coisas», e um idealismo gnoseológico, porque é o homem   quem tenta conhecer e que é necessário que este se liberte primeiro da sua realidade. Deste modo, para Platão, a realidade não é um dado adquirido: um caminho   longo e difícil deve levar-nos até ela.

Platão colocou, depois de Parmênides   e numa perspectiva muito diferente, o problema das relações entre o ser   e o conhecer: se o ser é posicionado, como irá ele deixar-se penetrar pelo conhecimento que eu possa ter dele? Se partir do «eu penso», poderei dizer que não existe qualquer ser independente de mim   com o qual o meu pensamento   se relacione? Eis o grande problema que coloca Platão e cuja gênese tentaremos reproduzir.


[1Les écrits de Jules Lagneau (Paris, 1924), p. 152.

[2J. Moreau, Réalisme et idéalisme chez Platon (Paris, 1951), p. 3.