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ousia

sexta-feira 25 de março de 2022

    

ousía: substância  , existência

1. Do fato de Sócrates   citar as variantes dialectais dóricas de ousia no Crát. 401c conjecturou-se que as origens filosóficas do termo são pitagóricas. A palavra tem, todavia, segundo a técnica   usual da terminologia variável de Platão  , uma série de significados diferentes nos diálogos. Assim, por vezes significa existência opondo-se a não-existência (Teet. 185c, 219b); é aplicada à existência de coisas sensíveis no Teet. 186b, e provavelmente a expressão   «passar a existir» (genesis   eis ousian) no Phil, 26d é um uso semelhante. Mas em outros passos ela está explicitamente em contraste com gênesis e com o mundo do devir (Soph. 232c, Tim. 29c) como modo de ser do «realmente real» (ontos on; ver Rep.   509b, onde o Bem está mesmo para além da ousia, e comparar hyperousia). A ousia chega a aproximar-se do uso aristotélico de «essência» no Fédon   65d, 92d, e no Fedro   245e onde é equivalente a «definição».

2. A busca aristotélica da substância começa nas Categorias   onde é descrita como aquilo que não é dito de um sujeito   ou não está presente   num sujeito, o homem   particular ou o cavalo particular. Este individual (tode ti  ) é substância no sentido primário, mas «substância» pode também ser usada para descrever o gênero   (genos) e a espécie (eidos  ), e destes o eidos tem mais pretensão a ser substância uma vez que está mais próximo da substância primária individual. Chamar a uma árvore individual «um carvalho» é mais revelador daquilo que ela é do que chamar-lhe «uma planta  » (Cat. 2a-b). Aristóteles   está ainda convencido de que o problema posto pela metafísica   e na verdade por toda a filosofia, i. e., «o que é o ser   [on]»? realmente se resolve em «o que é a ousia»? visto que o ser é, primeiro e antes de tudo, substância (Meta. 1028b).

3. Na Meta. 1069a Aristóteles distingue três tipos de ousiai: 1) sensível   (aisthetos) e eterno (aidios), i. e., os corpos celestes que, por o movimento   natural do seu elemento  , aither  , ser circular, são também eternos (ver aphthartos); 2) o sensível e o perecível, i. e., o que todos reconhecem como substâncias, plantas, animais  , etc; e 3) o imutável   (akinetos). Todas as substâncias das alíneas 1) e 2) são compostas, e Aristóteles procura determinar quais dos seus componentes têm mais pretensão a serem chamados substância (Meta. 1028b-1041b). A escolha   é reduzida a quatro: o substrato (hypokeimenon), o gênero (genos), o universal   (katholu), e a essência (ti esti). Os resultados são os mesmos que os obtidos nas Categorias: é a essência ou eidos que tem maior pretensão a ser substância (ibid. 1041a-b), já não como entidade predicacional, i. e., «espécie», mas como a causa   formal imanente nos seres compostos (ver eidos). Preenche os dois   pré-requisitos da substância: é separável (ver choriston  ) e, quando incorporado na matéria, individual (tode ti) (ibid. 1029a). Aristóteles trata das primeiras duas alíneas no De coelo e na Física e depois levanta o problema das substâncias imutáveis num livro posterior   da Metafísica (1071b-1076a). A existência destas é necessária porque tanto o movimento (kinesis) como o tempo (chronos  ) são eternos (1071b). Para justificar este movimento perpétuo deve haver uma substância não movida, i. e., algo que, como causa final, mova: esta é o Primeiro Motor (ibid. 1072a-1073a; ver kinoun 7-10). Há uma série destes motores e o seu número   exato deve ser determinado por cálculos astronômicos (47 ou 55?) (1073a-1074a; ver kinoun 11-12).

4. A categoria aristotélica de substância como hypokeimenon torna-se, para os estoicos  , matéria (SVF I, 87; II, 369). Ontologicamente é usada no mesmo sentido, ver Marco Aurélio  , Med. VI; 1; XII, 30. Plotino   critica e rejeita a análise aristotélica da substância (Enn. VI, 3, 3-5); a única coisa que a matéria, a forma e o composto têm em comum é o ser, e mesmo este é diferente nos três casos (ibid. VI, 3, 6-7). O que a ousia sensível é, então, não passa de um conglomerado de qualidades e matéria (ibid. VI, 3, 8). [F.E. Peters  , Termos filosóficos gregos]