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noûs

sexta-feira 25 de março de 2022

    

noûs: inteligência  , intelecto, espírito  

1. A busca de uma ordem   ou de um princípio ordenador está implícita tanto na mitologia como na filosofia gregas desde os princípios, nos mitos pela aplicação de um arranjo genealógico que remonta a uma fonte original ou «pai  » para a confusão   de deuses derivados de uma variedade de fontes, e entre os filósofos milésios pela sua procura de uma arche  . Esta última procura de um «pai» das coisas recebeu a sua confirmação inicial com a descoberta de um «pai» que consumiu todos os seus «filhos», i. e., o on de Parmênides. Mas o regresso a uma fonte é só um tipo de ordem, e os pensadores com orientação de espírito muito diferente investigaram o problema noutras direções. Há, insiste Heráclito, uma ordem oculta sob as aparências das coisas, ordem que ele descreve como o logos   (q. v. 1). Os pitagóricos foram ainda mais longe: descobriram que esta ordem podia ser expressa em termos matemáticos (ver harmonia  ) e, tornada explícita, que podia ser aplicada ao universo   como um todo (ver kosmos  ).

2. As condições cinéticas impostas por Parmênides haviam levado os seus sucessores a postular uma espécie de motor externo para explicar a mudança   no mundo sensível   (ver kinesis 2, kinoun 1). Para o fazer   Empédocles   entrara na esfera   moral por hipóstases das forças motoras humanas do «Amor» e do «Ódio» (ver kinoun 2), mas pela sua escolha   de um motor Anaxágoras   voltou-se para outra tradição  . O que Parmênides fizera na ontologia fora já realizado na teologia por Xenófanes  . Parte da luta   de Xenófanes contra o antropomorfismo (ver mythos   1, theos   1) foi a sua insistência em que Deus   deve ser completamente imóvel (frg. 26; aqui o argumento   baseia-se em «o que é adequado», prepon, um motivo estético, moral e teológico recorrente) e realiza os seus fins pelo poder do seu espírito (noûs) apenas (frg. 25). Estes pontos de vista estão prenhes de futuros desenvolvimentos. Além de estabelecer, aqui no começo do discurso teológico, a natureza intelectual de Deus, a opinião   de Xenófanes enfrenta o problema da sua atividade   no mundo e tira a conclusão de que esta deve realizar-se sem qualquer mudança   no próprio Deus (ver Esquilo, Suppl. 96-103). Dada a dificuldade   do tratamento deste tema, a sua determinação fica para outros (ver kinoun 9, pronoia   2, proodos   2).

3. Anaxágoras volta à noção   de Deus de Xenófanes com noûs ao postular uma força motriz que faz com que a «mistura» original rode e se separe em vários elementos   (ver genesis   7). Porque a hipóstase moral de Empédocles foi substituída por um princípio intelectual, noûs, que é separado da massa   sobre a qual atua (frg. 12; mas também é curiosamente imanente; ver noesis 4). A sua operação é descrita como «ordenadora» (diakosmesis), e conhece todas as coisas, o passado  , o presente e o futuro (frg. 12 cont.). Aqui, portanto, a ordem pitagórica e heraclítica do universo, governada, segundo Heráclito (frg. 64), pelo fogo   todo-universal  , é posta sob a tutela de uma força intelectual e finalizada cujo conhecimento abarca não só os acontecimentos do passado e do presente mas também os do futuro.

4. O aer   de Diógenes de Apolônia, o qual no seu estado   aquecido é o noûs (ver noesis 5), é mais uma arche dos Milésios do que um kinoun pós-parmenidiano (ver noesis 4), mas tem um sentido de finalidade ainda mais fortemente desenvolvido (telos  ). Tanto Sócrates (Fédon   97b) como Aristóteles (Metafísica   984b) tinham criticado Anaxágoras pelo seu uso mecanicista do noûs, mas Diógenes é um pouco mais cuidadoso no tratamento do problema. A operação do aer - noûs é testemunhada pelo fato de que todas as coisas operam de acordo com um princípio de medida (metron  ) e da melhor maneira possível (frg. 3; o seu próprio exemplo é a sucessão regular das estações).

Para a história subsequente destes motivos teleológicos, ver telos. [Termos Filosóficos Gregos, F. E. Peters  ]