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mythos

sexta-feira 25 de março de 2022

    

mythos: mito  

1. A atitude tradicional da filosofia em relação ao mito é expressa no contraste mythos-logos  , onde se pretende que o último signifique um relato racional, analítico e verdadeiro (ver Platão, Fédon   61b, Timeu   26e, etc). É paralela à distinção theologos - physikos   (ver theologia  ), mas a relação do primeiro par é algo mais complexa. É evidente   que tanto Sócrates como Platão tinham fortes objeções morais a opor aos mitos tradicionais (Euth. 6a-c, Fedro   229c-230a, Republica   376e-380c), tipo de crítica que remontava, pelo menos, a Xenófanes   (ver frg. 11). Uma tentativa de fazer face   a este tipo de ataque   era a crença de que havia um sentido subjacente (hyponoia) aos velhos mitos. Ao que parece isto foi popular nos círculos filosóficos do século quinto; ver Pródico (Diels, frg. B5), Anaxágoras   (D. L. II, 11), e Antístenes (Dio Chrysostom, Orat. 53, 4-5; confrontar Xenofonte  , Symp. III, 6). Platão não aceitará a hyponoia (Republica 378d), mas na literatura subsequente, o uso de uma interpretação   alegórica (allegoria  ) quer moral, física ou cosmológica, para extrair o sentido oculto   tornou-se um método poderoso de reconciliar a filosofia com o material tradicional nos poetas. Os estoicos   interessaram-se particularmente pela allegoria (ver Cícero  , De nat. deor. II, 24, 25, 64, 65, e passim; a facilidade estoica em etimologizar nomes foi aqui de considerável auxílio; ver onoma  ), e com Fílon a alegoria passou a servir de base à concordância entre a filosofia e a escritura (cf. Leg. all., passim).

2. Mas o mythos não se demitiu tão facilmente: Aristóteles sentiu que havia um ponto nas primeiras cosmogonias onde o logos e o mythos se justapunham (Metafísica   982b, 1074b; ver aporia  , endoxon), mas a apresentação deste era infantil (Metafísica 1000a; confrontar Platão, Soph. 243a) e Platão, por seu lado, foi céptico quanto aos resultados (ver a forte   ironia   do Timeu 40d-41a). Contudo os diálogos estão cheios de mitos que representam um papel central no desenrolar do argumento  , como, por exemplo, no Fédon e na República (escatológicos; ver athanatos  ), no Fedro (psicológicos) e no Timeu (físicos). Nem sequer é uma inovação de Platão; pode encontrar-se   em Protágoras   (se o mito do Protágoras 320c-323a é dele próprio e não de Platão), no proêmio do poema de Parmênides   (frg. 1) e nas abstrações semi-disfarçadas dos mitos de Ferecides (D. L. I, 119; confrontar Aristóteles, Metafísica 1091b); ver theos. [Termos Filosóficos Gregos, F. E. Peters  ]


A distinção entre mythos: relato, ficção, história e logos: discurso racional e verdadeiro, se precisa com Platão (cf. em Timeu 26e a oposição entr o relato forjado: plasthenteis mythos, e discurso verdadeiro: alethinos logos). A deusa   de Parmênides, por exemplo, qualifica indiferentemente sua palavra de Verdade de mythos e de logos (Parmênides, B II, 1 e VIII, 1 D.K.: mythos; VIII, 50). As fábulas de Esôpo são nomeadas por Cebes, logoi   (60d: sem dúvida porque elas estavam em prosa), mas por Sócrates mythoi (61b) posto que são ficções. Da mesma maneira, no Górgias   (523a), Sócrates vai manter um discurso que para ele é um logos, e que Calicles considerará talvez um mythos. Mas não há em Platão sinonímia nem como em Protágoras assimilação   deliberada e negação de toda diferença   possível entre os dois   termos (no Protágoras, 320c, Protágoras demanda se se prefere que ele demonstre um mythos ou ele conte um logos); a determinação acordada é função daquele que determina. [Monique Dixsaut]
É Platão que deu ao grego antigo mythos a significação que reveste hoje em dia para nós o termo «mito». Na língua grega, o sentido de mythos se modificou em função das transformações que afetaram o vocabulário do «dizer» e da «palavra», no curso de uma evolução histórica cuja obra de Platão é o termo; antes de Platão, mythos significa simplesmente «palavra», «aviso que se expressa»; depois, designa este tipo de relato infalsificável que trata dos deuses, demônios, heróis, habitantes do Hades   e dos homens do passado  . (Luc Brisson  )