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gnorimon

sexta-feira 25 de março de 2022

    

gnôrimon: cognoscível, inteligível

1. Embora a noção   de que a cognoscibilidade das coisas é relativa e tenha os seus precedentes platônicos, ela é fundamental para a epistemologia aristotélica, particularmente porque se aplica aos objetos da metafísica  . A distinção é apresentada claramente nos Anal. post. I, 71b-72a; as coisas são cognoscíveis (gnorimon  ) em dois   sentidos diferentes; o que é por natureza (physei) mais cognoscível não é necessariamente para nós mais bem conhecido (prós hemas). A aplicação prática deste princípio é ambivalente. Na metafísica devia começar-se com as coisas para nós mais inteligíveis e com o nosso modo de conhecer, e prosseguir depois para aquilo que é intrinsecamente mais inteligível (Metafísica 1029b); na ética os homens deviam ser educados para ver que aquilo que é intrinsecamente bom é também um bem para eles (Ethica Nichomacos V, 1129b; o paralelismo ético é referido na Metafísica, loc. cit).

2. A raiz deste princípio deve procurar-se dentro dos quadros mais gerais da teoria   aristotélica do conhecimento, visto que a diferença   nos graus de inteligibilidade não é devida a qualquer defeito   no objeto mas antes na nossa maneira de conhecer (Metafísica 993b). A base de toda a nossa cognição é a percepção dos sentidos (aisthesis  ), e até a demonstração silogística (apodeixis  ) assenta numa forma de indução   (epagoge), i. é, num processo que começa com a percepção dos particulares (Anal. post. II, 100b). O conhecimento científico (episteme) diz respeito ao universal   (katholou), e embora as percepções sensoriais concebam imediatamente uma espécie de «universal concreto» (ver Physica I, 184a), este não é o universal da ciência que é apreendido apenas pela razão   (logos  ).

3. O papel da filosofia então é partir daquilo que é para nós inteligível, i. é, o vislumbre da inteligibilidade que se tem através dos sensíveis (aistheta), imediatamente percebidos, para aquilo que é de si propriamente inteligível (physei).

4. Os antecedentes platônicos de tudo isto são claros. A linguagem da Metafísica 1029b acima referida é reminiscência da distinção platônica entre os inteligíveis realmente existentes (ontos on) e o estatuto quase-real (pos on) do mundo sensível  ; a descrição que Aristóteles faz dos defeitos do nosso conhecimento sensorial (Metafísica 993b) é um eco da imagística da Alegoria   da Caverna   na Republica   516a. Para os dois filósofos a verdadeira inteligibilidade é função da imaterialidade (ver Meta 1078a), e enquanto concordavam em que o mais alto tipo de conhecimento é o estudo do inteligível-em-si (ver episteme, dialektike  , theologia  ), onde diferem é nas suas atitudes para com o estudo dos sensíveis. O curriculum platônico na República X é estruturado para afastar do sensível para o inteligível; a imanência   do eidos   aristotélico garante o valor   de um estudo dos aistheta (confrontar a diferença paralela entre a indução platônica (synagoge  ) e a aristotélica (epagoge)), quer num sentido histórico como a investigação das opiniões dos outros (ver aporia  , endoxon), quer como a extração do inteligível vaga e discursivamente apreendido a partir do sensível imediatamente percebido. [Termos Filosóficos Gregos, F. E. Peters  ]