Página inicial > Antiguidade > daimon ou daimonion

daimon ou daimonion

sexta-feira 25 de março de 2022

    

daímôn   ou daimónion: presença   ou entidade sobrenatural, algures entre um deus   (theos  ) e um herói  

Em grego antigo este termo tem dois   sentidos, que sem se opor, são distintos: no singular, daimon designa uma divindade sem nome que intervem de maneira habitual na vida dos homens e que configura seu destino, que pode ser exemplificado pelo demônio de Sócrates, que orienta em suas ações; no plural o termo tende a significar divindades menores intermediárias entres os deuses e os homens, por exemplo Eros  . [Notions philosophiques  ]


1. A crença em espíritos sobrenaturais um pouco menos antropomorfizados do que os Olímpicos é uma característica muito recuada da religião popular grega; um certo daimon está ligado a uma pessoa   ao nascer e determina, para o bem ou para o mal, o seu destino (confrontar a palavra grega para felicidade  , eudaimonia, que tem um bom daimon). Heráclito protestou contra esta crença (frg. 119; ver ethos  ), mas sem grande efeito. Na concepção xamanística da psyche  , daimon é um outro nome para a alma (Empédocles, frg. 115), refletindo provavelmente as suas origens divinas e poderes extraordinários. Sócrates está, pelo menos parcialmente, dentro da tradição   religiosa arcaica quando fala do seu «algo divino» (daimonion ti) que o aconselha a evitar certas ações (Apol. 31d; a sua operação é consideravelmente mais vasta no relato de Xenofonte   nas Mem. I, 1, 4); notável é o uso constante que Sócrates faz da forma impessoal da palavra ou do sinônimo «sinal divino» (ver Fedro   242b), talvez a ligeira correção do racionalista daquilo que era uma crença popular contemporânea na adivinhação  , mensagens de sonhos divinos, profecias, etc, uma crença que Sócrates compartilhava (Apol. 21b, 33c, Críton   44a, Fédon  , 60c; ver mantike). É provavelmente um erro   pensar   que Sócrates ou os seus contemporâneos distinguissem com muito cuidado   daimon de theion, visto que a defesa socrática contra o ateísmo na Apol. 27d, assenta num argumento   de que acreditar nos daimones é acreditar nos deuses.

2. A ideia do daimon como uma espécie de «anjo   da guarda» ainda é visível   em Platão (Republica   620d), embora uma tentativa de fuga   ao fatalismo implícito na crença popular pelo fato das almas individuais escolherem já o seu próprio daimon (Republica 617e). Se este daimon individual está ou não dentro de nós foi muito discutido na filosofia posterior  . Num passo (Timeu   90a) o próprio Platão o identifica com a alma e pode ver-se um reflexo disto, por exemplo, em Marco Aurélio   II, 17, III, 16 (ver noesis 17).

3. Mas uma outra noção  , a do daimon como uma figura intermédia entre os Olímpicos e os mortais  , está também presente   em Platão, v. g. o Eros «demoníaco» no Symp. 202d-203a, e os regulamentos nas Leis 714a-b. Esta posição   teve larga voga entre os transcendentalistas posteriores das tendências neopitagórica e platônica; os verdadeiros deuses (ver ouranioi) habitavam o aither   enquanto os daimones menores habitavam o aer   inferior   e exerciam uma providência directa (ver pronoia  ) sobre as ações dos homens (D. L. VIII, 32).

4. Plutarco   tem uma demonologia altamente desenvolvida (De def. orac. 414f-417b), e com o seu típico conservantismo religioso ele delineia o culto desses intermediários recuando até as fontes oriental e grega primitiva (v. g. Hesíodo  , Erga 159-160; confrontar Platão, Republica 468e-469b), e Empédocles (ibid. 419a; o seu relato da origem   dos daimones encontra-se em De gênio Socr. 591c-tf). Uma fonte omitida por Plutarco é o contato com a tradição semítica, ligação explícita em Fílon que identificara anteriormente os daimones da filosofia grega com os anjos da tradição judaica   (iraniana?) (De somn. 141-142, De gigant. 6-9). [Termos Filosóficos Gregos, F. E. Peters  ]


O termo daimon foi traduzido de diversas maneiras  : «espírito  » (Armstrong  ), «espírito celeste» (MacKenna  ), «demônio» (Faggin   e Igal  ) e ainda outros por «gênio». Sommerman prefere não traduzi-lo, mas transliterá-lo, pois traduzi-lo por «espírito» lhe parece reduzir um pouco a abrangência do termo conforme definido no Tratado 15 (neste caso «gênio» seria melhor) e traduzi-lo por «demônio» remeteria imediatamente o imaginário do leitor ao oposto do significado deste termo na tradição platônica e neoplatônica, segundo Sommerman. Em outra nota de sua tradução de alguns tratados, Sommerman afirma que as traduções mais precisas para esse termo seriam «anjo guardião  » ou «gênio».