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arche

sexta-feira 25 de março de 2022

arché: começo, ponto de partida, princípio, suprema substância subjacente (Urstoff), princípio supremo indemonstrável

1. A busca da «substância» básica de que são feitas todas as coisas é a mais antiga da filosofia grega e é acompanhada pelo problema com ela relacionado de qual é o processo que por sua vez faz surgir das coisas primárias as coisas secundárias. Ou, para utilizar terminologia estritamente aristotélica: o que é a arche (ou archai) e qual é a gênesis dos syntheta?

2. A procura pré-socrática de uma arche no sentido de uma causa material (Aristóteles   colocara a investigação dentro das suas próprias categorias de causalidade; ver endoxon para o método implicado) é descrita por Aristóteles   na Metafísica 983-985b, e a palavra arche deve ter sido usada pela primeira vez neste sentido técnico por Anaximandro   (Diels, 12A9). Os primeiros candidatos a elementos constitutivos das coisas foram substâncias naturais individuais, água ou umidade (Tales; ver Metafísica 983b) e o ar (ver aer), mas com a sugestão de Anaximandro   de que a arche era algo indeterminado (apeiron) fora dado um enorme passo no sentido da abstração afastando-se do puramente sensorial. Abriu a possibilidade de a arche ser algo mais básico do que aquilo que podia ser percepcionado pelos sentidos, embora o apeiron fosse, neste estádio, inequivocamente material. Assim Anaximandro   iniciou a linha de investigação que levou ao Uno simples e esférico de Parmênides   (ver on, hen) com a correlativa distinção entre o saber verdadeiro (episteme) e a opinião (doxa), e às archai geométricas e matemáticas dos pitagóricos (ver arithmos, monas) e aos atonia de Leucipo e Demócrito.

3. Aquilo que se podia chamar a tradição sensualista continuou a procurar as entidades supremas e irredutíveis nos corpos percepcionados pelos sentidos até que Emipédocles os fixou em quatro, os stoicheia terra, ar, fogo e água, mas poucos mais, além de Empédocles  , aceitam estes como verdadeiras archai; eles são antes estádios entre as archai ainda mais remotas e as complexidades superiores dos corpos compósitos (syntheta).

4. A procura das archai toma então um novo rumo. Tanto Parmênides   como Empédocles   tinham sido categóricos na negação da mudança, o primeiro atribuindo-a a uma ilusão dos sentidos, o segundo sustentando a eternidade dos stoicheia. Mas isso era uma limitação que a breve trecho foi superada; Anaxágoras   e os atomistas, cada qual à sua maneira, reafirmam a gênesis e assim, também, a possibilidade de que os stoicheia de Empédocles   se transformem uns nos outros.

5. Uma nova análise da gênesis feita por Platão e Aristóteles   rejeita as velhas noções da mudança como mistura ou conglomeração ou associação e concentra-se em vez disso — o exemplo tinha sido dado por Anaxágoras   (ver frgs. 4, 12) — na velha noção das «forças» contrárias (ver dynamis, enantion, pathos). Isto está bem dentro da tradição sensualista visto que estas forças podem ser distinguidas pelos sentidos (reduzidas por Aristóteles  , De gen. et corr. II, 329b, ao sentido do tacto, haphe); mas há também uma inclinação na direção do apeiron com o isolamento da outra grande arche da mudança, o substrato indefinido e imperceptível (ver hypokeimenon, hypodoche, hyle).

6. Esta é, pois, a solução eventual (entre os «geneticistas»; as versões atomista e pitagórica continuam a florescer) do problema das archai dos corpos físicos: forças opostas, algumas das quais podem atuar (ver poiein) enquanto que outras podem ser actuadas (ver paschein), um substrato material em que ocorre a mudança e, eventualmente, um iniciador da mudança (ver noûs, kinoun).

7. Um problema relacionado é o que é posto pela demonstração (apodeixis) recuando às suas archai supremas, as primeiras premissas do conhecimento ou os princípios supremos em que assenta um silogismo, Para os platônicos para quem o verdadeiro conhecimento é fundamentalmente inato baseado como é numa visão pré-natal dos eide (ver anamnesis, palingenesia), o problema é de pouca importância, excepto talvez na teoria posterior da dialética onde toda a aproximação da anamnesis ao conhecimento tende a recuar à origem (ver dialektike).

Quanto ao sensualista que funda todo o conhecimento na percepção sensorial, ele é forçado, pela validação das premissas do conhecimento noético, a identificar a aisthesis e a noesis (assim os atomistas, embora Epicuro   se afaste um pouco com a sua noção de «auto-evidência»; ver enargeia), ou a ligar ambas, como fez Aristóteles  , com o conceito de intuição (ver epagoge, noûs).

Para outra orientação do problema das archai dos corpos físicos, ver syntheton; para o processo pelo qual as archai se tornam entidades mais complexas, ver gênesis; para a existência de duas archai eticamente opostas, ver kakon. [Termos Filosóficos Gregos, F  . E. Peters  ]