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Thonnard: A Inteligência.

sexta-feira 25 de março de 2022

    

II. — A Inteligência  .

129. — A Inteligência é chamada por Plotino  , o Nous, muito mais raramente o Logos   (Verbum) como os estoicos   e Filon. Vindo de Deus   por emanação   necessária, existe necessariamente desde toda a eternidade  . Contudo, ela é verdadeiro efeito, e pode definir  -se-lhe a natureza mediante a aplicação dos dois   aspectos do princípio fundamental.

A) Degradação.

Manifesta-se sob o tríplice ponto de vista da unidade  , da verdade e da bondade.

1) A Inteligência já não possui a absoluta simplicidade do Uno, porque implica essencial dualidade : a do sujeito   e a do objeto. Não é unicamente pura intuição  , mas em primeiro lugar contemplação   doutro ser que é Deus : «É pensando o Bem que ela se pensa a si mesma».

2) Em virtude desta inferioridade, não pode esgotar com um só olhar a plenitude   transcendente do seu objeto, o Uno  . Nela a verdade fragmenta-se na multidão de Ideias; e Plotino adota aqui a célebre doutrina   do mundo ideal de Platão  , com todas as suas ideias de gêneros, espécies, e até de indivíduos, harmoniosamente hierarquizadas e procedendo desta Ideia suprema mal perceptível, que Platão chamava o Bem, e que Plotino chama o Uno.

3) A menor unidade arrasta menos bondade. A pluralidade das Ideias exige uma espécie de sujeito receptor e multiplicador que, permanecendo de ordem   imaterial, divino e infinito  , já não tem a plenitude de perfeição do primeiro ato.

B) Semelhança  .

Sendo a Inteligência o primeiro efeito, só admite um mínimo de degradação e mantém ainda uma grande semelhança com a unidade, a verdade e a bondade do Uno.

1° Participa da unidade, em primeiro lugar porque o Uno é o único objeto de sua contemplação. Além disso, essas Ideias (permanecendo realmente múltiplas) não são individualidades subsistentes, como para Platão; identificam-se todas com a essência   única da Inteligência que as reúne como em feixe de forças específicas distintas mas constituindo um único princípio de atividade  . O «mundo ideal» tornou-se uma única Inteligência pessoal, uma Hipóstase.

2° Participa ainda da verdade imutável  . Como as Ideias constituem a sua essência, contém por si mesma todos os pensamentos; não precisa de formar imagens representativas, nem de raciocinar, para adquirir a plena verdade : basta-lhe contemplar-se tal como é : imagem perfeita do Uno; de sorte que não pode incorrer em erro  . Daí a sua impressionante. beleza que é o esplendor da verdade : «Beleza primeira, beleza integral, não há nela coisa alguma onde a sua beleza seja deficiente».

3° Esta indefectível contemplação da verdade no Uno, permite-lhe não só participar na bondade suprema mas também na perfeição e felicidade   definitiva. Plotino chama-lhe um Deus que possui imutavelmente todas as coisas : «Para que tentar mudar  , se possui toda a bondade? Para que tentar engrandecer-se se é perfeitíssima»?. Possui assim «a verdadeira eternidade da qual o tempo, que envolve a alma  ..., é imitação  ».

130. — Faltaria conciliar esta duas afirmações : As Ideias são realmente distintas; são idênticas à única essência da Inteligência. Plotino limita-se muitas vezes a justapor estas duas conclusões que refletem o duplo aspecto do seu princípio fundamental. «O ser   que pensa, dirá ele, há-de ser ao mesmo tempo um e dois... E forçoso, pois, que seja ao mesmo tempo simples e que não seja simples».

Eis a explicação de Bréhier   : «A inteligência é visão   do Uno, e por isso mesmo é conhecimento de si e conhecimento do mundo inteligível  ... A concepção mais profunda que se possa ter do mundo inteligível é a de uma sociedade de inteligências ou, se se quer, de espíritos cada um dos quais pensando-se a si mesmo  , pensa todos os outros, não formando, portanto, senão uma Inteligência ou Espírito   único».

Mas é, sobretudo, a propósito da alma, onde se encontra uma dificuldade   semelhante, que Plotino a examina e resolve.