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Bréhier (HF) – Origem da ciência. Reminiscência e mito

segunda-feira 19 de setembro de 2022

    

Sucupira Filho

Para compreender o Platão   da maturidade, é da mais alta importância ter presente   ao espírito   os dois   planos de conhecimento intelectual. A sua distinção relaciona-se toda uma série de problemas. Em primeiro lugar, o Platão puramente socrático, que se contentava em submeter à prova as fórmulas ou soluções dadas pelo interlocutor, deixava no ar a origem   das próprias fórmulas. Se elas eram arbitrárias, que possibilidade tinham de estar de acordo com a realidade? Tal é o sentido da questão sofistica proposta por Ménon   (Ménon, 80. d); a investigação é impossível se se ignora o que se pesquisa, como se torna inútil se se a conhece. É preciso, pois, que o interlocutor tenha já o espírito orientado para a realidade, que tenha conhecido essa realidade e que a investigação e o conhecimento não sejam senão uma «reminiscência» (81 d). — Se o espírito, por simples reflexão   (orientada ou não pelas perguntas do mestre) pôde descobrir verdades, é que ele as possuía em si mesmo  ; através da simples reflexão  , o escravo   interrogado por Sócrates   descobre que o dobro do quadrado de um outro está construído sobre a diagonal (82 b- 85 b). Ora, descobrir uma verdade de que se tem posse é relembrá-la. A teoria   da reminiscência nunca é teoria inativa, mas teoria estimulante. Graças a ela,«devemos ter valor   constante e esforçar-nos por investigar e reencontrar a memória do que perdemos de lembrança» (81 de - 86 b). Tornamo-nos, assim, «melhores, mais enérgicos, menos indolentes». A reminiscência é a primeira condição da autonomia   do espírito de investigação.

Contudo, essa teoria implica, por seu turno, a grave afirmação da preexistência da alma   (81 b). A imortalidade   da alma, de que Platão duvidou nos primeiros diálogos (Apologia   de Sócrates, 29 ab), torna-se agora condição da ciência. A afirmação seca e abstrata da preexistência não é suficiente. Platão, sem dúvida, pensou que essa crença não tomaria corpo, sempre que ela pudesse ser representada por um mito  . O mito, que descreve a existência   da alma fora do corpo, era, sob a forma primeira que tomou no Górgias   (523 a), completamente independente das preocupações do Ménon; narrava somente como a obra da justiça continuava depois da morte. Nos diálogos subsequentes, o mito conserva, sem dúvida, em sua maior parte, a mesma característica e permanece como relato de um julgamento   divino. Todavia, um reparo é feito no Fedro   (248 ac ), com bastante destaque, qual seja, a maneira pela qual a alma adquiriu, antes de penetrar no corpo, o conhecimento das realidades, cujo reconhecimento reencontrará durante sua vida terrestre. Acompanhando os deuses do céu em seu curso circular, ela vê, em um «plano além do céu  », essas realidades «sem cor e sem forma» que são as ideias, a justiça em si, a temperança, a ciência. Depois, ligadas a um corpo, as almas, às quais as circunstâncias   possibilitaram ver melhor, tornar-se-ão almas de filósofos capazes de relembrança.

Destarte, as ideias tornam-se, no Fedro, elementos   constitutivos do mito da alma; situam-se além do mundo sensível  , no plano supraceleste que a alma contempla. Essa tendência a uma espécie de realização   mítica e imaginativa das ideias é, talvez, um escolho na filosofia de Platão; mas percebe-se que ela depende da teoria da reminiscência, que é também uma condição da ciência. Mito e ciência, se querem ultrapassar as hipóteses matemáticas, encontrar-se  -ão presos por um laço indissolúvel.

Original

Il importe au plus haut point, pour bien comprendre le Platon de la maturité, d’avoir toujours présents à l’esprit ces deux plans de la connaissance intellectuelle. A leur distinction se rattache toute une série de problèmes. En premier lieu, le Platon purement socratique, qui se contentait de soumettre à l’épreuve les formules ou solutions données par le répondant, laissait dans un vague complet l’origine de ces formules elles-mêmes ; pourtant, si elles étaient pleinement arbitraires, quelle chance avaient elles de s’accorder avec la réalité ? C’est là le sens de la question sophistique posée par Ménon ; la recherche est impossible si on ignore tout de ce que l’on recherche ; comme elle est inutile si on le connaît. Il faut donc que le répondant ait déjà l’esprit orienté vers la réalité ; il faut donc qu’il ait déjà connu cette réalité, et que recherche et savoir ne soient qu’une « réminiscence » (81d). Si l’esprit, par la simple réflexion (guidée ou non par les interrogations du maître) peut découvrir des vérités, c’est qu’il les possédait déjà en lui-même ; et c’est par la simple réflexion que l’esclave interrogé par Socrate découvre que le carré double d’un autre est celui qui est construit sur la diagonale (82b 85b) ; or, découvrir une vérité que l’on possédait déjà, c’est se ressouvenir. La théorie de la réminiscence n’est d’ailleurs nullement une théorie paresseuse, mais une théorie stimulante ; c’est grâce à elle que « nous devons avoir bon courage et nous efforcer de rechercher et de retrouver la mémoire de ce dont nous avons perdu le souvenir » (81de-86b). Grâce à elle, nous devenons « meilleurs, plus énergiques, moins paresseux ». La réminiscence, c’est le premier nom de l’autonomie de l’esprit dans la recherche.

Mais cette théorie implique à son tour la grave affirmation de la préexistence de l’âme (81b). L’immortalité de l’âme, dont Platon a douté dans ses premiers dialogues , devient maintenant une condition de la science. L’affirmation, sèche et abstraite, de la préexistence, ne suffit pas. Platon a sans doute pensé que cette croyance ne prendrait corps que si elle pouvait se représenter en un mythe. Le mythe, qui raconte l’existence de l’âme en dehors du corps, était, sous la première forme qu’il prit dans le Gorgias (523a), bien indépendant des préoccupations du Ménon ; il racontait seulement comment l’œuvre de justice se poursuivait après la mort ; dans les dialogues suivants, le mythe garde sans doute, dans sa plus grande partie, le même caractère et reste le récit d’un jugement divin. Toutefois, une place est faite, et qui dans le Phèdre (248ac) est très grande, à la manière dont l’âme a acquis, avant d’entrer dans le corps, la connaissance des réalités dont elle retrouvera le souvenir pendant sa vie terrestre ; en accompagnant les dieux du ciel dans leur course circulaire, elle a vu, dans « un lieu qui est au delà du ciel », ces réalités « sans couleur   et sans forme » que sont les idées, la justice en soi, la tempérance, la science ; après être tombées dans un corps, les âmes à qui les circonstances auront permis de mieux voir deviendront des âmes de philosophes capables de souvenir.

Ainsi, les idées deviennent, dans le Phèdre, des éléments constitutifs du mythe de l’âme ; elles sont localisées au delà du monde sensible dans le lieu supracéleste   qu’aperçoit l’âme. Cette tendance à une sorte de réalisation mythique et imaginative des idées est peut être un écueil de la philosophie de Platon ; mais on voit comment elle dépend de la théorie de la réminiscence qui est elle même une condition de la science. Le mythe et la science, si elle veut dépasser les hypothèses mathématiques, sont liés d’un lien indissoluble.


Ver online : Émile Bréhier