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Thonnard: A Metafísica de Plotino

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Excertos de Thonnard, Compêndio de História da Filosofia

Descida dos seres que vêm de Deus  .

124. — Toda a metafísica   é uma explicação do real considerado no seu conjunto  , uma determinação das razões de ser supremas e universais das coisas : «Scientia entis ut sic». Eis porque, embora não- contenha explicitamente a teoria   aristotélica das causas, pode sempre caracterizar-se pela sua maneira de determinar as causas profundas. Ora Plotino   não se limita a atribuir aos seres a causa   primeira exemplar   e final, como Platão  ; ou uma primeira causa motora, como Aristóteles  ; ou uma causa formal, como os estoicos  ; mas determina a causa do seu ser. De fato, fala desta causa a propósito de cada grau de ser; mas é fácil encontrar o princípio fundamental que dá unidade   a toda a sua teoria.

Principio fundamental.

Todo o ser   perfeito é causa eficiente perfeita, isto é, maniiesta necessariamente a sua perfeição produzindo um ser à sua imagem, de sorte que a sua causalidade goza de tríplice carácter :

1° O agente   dá sem nada perder, como o vaso cheio trasborda sem deixar de estar cheio, ou como o sol   que emite raios   luminosos sem diminuir a luz  ; a sua ação causal é precisamente «a contemplação silenciosa da sua perfeição que se exterioriza por si mesma numa imagem».

2° O efeito, por seu lado, é necessariamente semelhante à causa, participando da sua perfeição. Sob este ponto de vista, não pode separar-se dela, permanece-lhe intimamente unido e como imanente.

3° Por outro lado, a perfeição do efeito nunca pode igualar a da causa; e sob este ponto de vista, todo o principio é realmente distinto dos seus efeitos : Plotino afirma-o nitidamente e esse é um corolário muito lógico, porque seria absurdo identificar o perfeito imutável   com a imagem imperfeita que dele procede.

Em resumo : «Todo o ser perfeito produz sem nada perder uma imagem dotada, em relação ao seu modelo, ao mesmo tempo de semelhança   e de degradação; de imanência   e de distinção real».

Rigorosamente, Plotino não demonstra o seu princípio; para lhe mostrar a evidência, apresenta exemplos. Verifica-se, com efeito, que todos os seres, em atingindo a perfeição, longe de repousarem estérilmente, derramam à volta a sua superabundancia : o fogo   ilumina e aquece, a neve não conserva em si todo o frio, os objetos perfumados alegram toda a vizinhança. Assim o ser perfeito supremo não pode ser nem cioso da sua perfeição, nem impotente para a comunicar : necessariamente há-de comunicá-la, assim como todo o ser perfeito, na medida da sua perfeição. — Mas a origem   profunda da justificação deste princípio está na intuição   do ser perfeito que Plotino concebe como bondade superabundante e ativa, segundo o adágio platônico : «Bonum   est diffusivum sui». Eis porque se apreende melhor o alcance desta teoria nas suas aplicações.

Com efeito, à luz deste princípio, o universo   aparece constituído por uma hierarquia de seres que procedem ou emanam uns dos outros segundo a lei da degradação descendente e contínua. Plotino, contudo, reduz ao mínimo o número   de seres no mundo ideal e prova que não pode haver mais que três :

1° No cimo, o Ser necessário, plenamente perfeito, que tem o nome próprio de Uno. Não é preciso demonstrar   a sua existência, porque ela se impõe por si mesma como fonte suprema de toda a realidade : negá-la seria suprimir toda a explicação racional do Universo.

2° Imediatamente depois do Uno vem a dualidade   essencial à Inteligência  .

3° Depois, é a pluralidade ainda unificada, na Alma  .

4° A seguir, apenas se encontra - a pluralidade pura, e por consequência o não-ser : é a Matéria.

O Uno  , a Inteligência, a Alma, a Matéria : tais são as quatro aplicações do princípio fundamental de Plotino.


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