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Julían Marías: Plotino

sexta-feira 25 de março de 2022

No século III de nossa era, já no final do mundo helênico, aparece a pujante escola neoplatônica, o último esforço da mente grega para dar uma interpretação metafísica da realidade a partir de seus próprios pressupostos. Plotino   (204-270) foi o grande mestre deste período. Nascido no Egito, convertido em chefe de escola e homem importantíssimo na própria Roma, desenvolve uma vida estranha, misteriosa e ascética, que lhe confere enorme prestígio. Sua obra, zelosamente conservada por seus discípulos, foi dividida por Porfírio   em seis grupos de nove livros, chamados por esse motivo Enéadas  . Sua influência foi extraordinária em toda a Idade Média, especialmente desde Santo Agostinho   até São Boaventura  , e mais tarde em todas as correntes de pensamento determinadas pelo misticismo.

Plotino   remete-se, em primeiro lugar, a Platão  : os platônicos, era o nome que se dava a si mesma a escola que chamamos neoplatônica. Mas ao mesmo tempo retoma a especulação aristotélica e a das filosofias helenistas; surgem freqüentemente em suas páginas alusões aos peripatéticos, aos epicureus e aos estóicos. E, sobretudo, o pensamento plotinia-no está determinado pela presença próxima do cristianismo. A rigor, em Plotino   a mente grega se atreve, pela primeira vez, a pensar o mundo como algo produzido; sob a pressão da idéia cristã da criação, o mundo aparecerá como algo cujo ser foi produzido pela Divindade — o Uno —; o pensamento helênico, porém, não é capaz de enfrentar-se com o nada; e daí seu conceito de emanação e, em última análise, o panteísmo. A metafísica emanentista de Plotino   é a tentativa de pensar a criação sem o nada, isto é, a reação mental grega frente aos novos pressupostos, que decorrem do primeiro versículo do Gênese.

Plotino  , que retoma a antropologia platônico-aristotélica, acentua energicamente o caráter peculiar da vida e, sobretudo, a posição intermédia do homem, sua constante referência ao mais alto, sua capacidade de alcançar o divino, a possibilidade, inclusive, de que a alma se separe do corpo, ainda nesta vida — o êxtase —, para elevar-se à esfera superior, na qual alcança sua felicidade. Tudo isto animado de um espírito extraordinariamente vivo, cuja influência filosófica e religiosa foi tão eficaz como, por vezes, perigosa. O pensamento cristão acerca do homem nutriu-se durante séculos da especulação neoplatônica, e teve ao mesmo tempo que bordejar o constante risco de panteísmo que a ameaça.

Entre as muitas passagens das Enéadas   onde Plotino   se refere com singular penetração e agudeza ao homem, escolhi as que me pareceram mata características e ao mesmo tempo mais expressivas quando tomadas isoladamente. Mas é preciso acentuar aqui, muito especialmente, o sentido puramente antológico desta seleção.

Para a tradução me servi da excelente edição de :227. Sobre Plotino   pode-se consultar: J. Simon: Histoire de L’école D’ Alexandrie (1845); Th. Whittaker: The Neo-Platonists; a study in the history of Hellenism (1901); W.R. Inge: The Philosophy Of Plotinus Vol I e The philosophy of Plotinus ... (Volume 2) (1918); P. Helnemann: Plotin   (1921); E. Bréhier  : La philosophie de Plotin   (1928). Uma atitude interessante ante a figura de Plotino   pode ser encontrada na antiga conferência de Brentano   entitulada Was für ein Philosoph manchmal Epoche macht (1876), publicada em Die vier Phasen der Philosophie, págs 33-59.


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