Página inicial > Antiguidade > Julían Marías: Sócrates

Julían Marías: Sócrates

sexta-feira 25 de março de 2022

    

A Sofística encontrou sua superação em Sócrates  , que trouxe de novo a filosofia à via da verdade, isto é, fê-la voltar a ser filosofia, em um momento em que ameaçava dissolver  -se em retórica. Mas Sócrates, inimigo   dos sofistas em sua dimensão antifilosófica e falsa, recolhe deles seu interesse   primordial pelo homem  , sua preocupação ética. A moral, o conhecimento do homem, é este o grande tema socrático: Gnothi Sauton, «conhece-te a ti mesmo  ». Desse momento em diante, a investigação acerca do ente   humano cobrará na Grécia um desenvolvimento antes desconhecido  .

Em primeiro lugar, Sócrates inverte um tanto os termos da questão. O homem de que agora se trata não é mais o cidadão  , definido por sua dimensão política e, especialmente, por sua capacidade de falar e persuadir. O logos  , que em mãos dos sofistas é, sobretudo, discurso político, retórica que aspira produzir uma opinião  , significará em Sócrates o dizer, no qual o que mais importa é o dito. Não simplesmente falar, e sim dizer o que as coisas são; em outros termos, pô-las na verdade, e viver   assim — humanamente — nela. O homem socrático, portanto, é o homem real, é cada homem, que se pode conhecer, que pode manifestar sua intimidade e torná-la patente, na luz. A fecundidade deste interesse pelo homem mesmo é grande e duradoura: a rigor, começa com Sócrates a especulação   helénica sobre o humano enquanto tal; tudo o mais foram apenas esboços imaturos.

O homem socrático é capaz de saber; e saber é, propriamente, definir  , dizer o que (Ti) são as coisas. O que Sócrates pede é a definição, o verdadeiro conhecimento das essências. E, antes de tudo, o homem pode saber o que é bom: nisto consiste a ética, que para Sócrates é, rigorosamente, ciência, algo que se pode aprender   e ensinar. O homem deve conhecer-se a si mesmo  , conhecer sua virtude, aquilo para o que nasceu, e, por conseguinte, seu bem. É esta a moral socrática, ligada essencialmente ao saber, tal como aparecerá na filosofia platônica-aristotélica posterior  .

Sócrates nada escreveu: não possuímos textos seus, e conhecemos seu pensamento   só por referências indiretas e, sobretudo, por suas conseqüências. Em primeiro lugar, Sócrates inspira em boa parte o pensamento platônico, e encontra nele sua verdadeira realização   filosófica; em segundo lugar, Xenofonte   também está dominado por sua influência. Por outro lado, a moral socrática tem prosseguimento, em forma diversa, nas pequenas escolas socráticas (cínicos e cirenáicos) e especialmente nas filosofias da época helenística, o epicurismo e o estoicismo  .

Sobre Sócrates, à parte das Memoráveis, o Banquete   e a Apologia   de Xenofonte, e dos diálogos platônicos, em especial os da primeira época (Apologia, Críton  , Fédon  ), se podem consultar alguns livros modernos: Karl Joel: Der echte und der xenophontische Sokrates (1893-1901); Henrich Maier: Sokrates (1913); John Burnet: GREEK PHILOSOPHY THALES TO PLATO (1920); Xavier Zubiri  : Sócrates y la sabiduría griega (1940).


Ver online : SÓCRATES