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Teeteto

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Sobre o conhecimento científico. Contra o heraclitismo epistemológico.

Segundo Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri, tradutores do diálogo   para a Fundação Calouste (Lisboa, 2010) é a seguinte sua estrutura   e argumento  .

A estrutura do diálogo parece comparativamente simples. Após uma dupla introdução dramática, a segunda das quais gradualmente vai assumindo uma função metodológica, Sócrates lança a pergunta - «O que é o saber?» que comandará todo o diálogo.

É a ela que Teeteto   apresenta as três respostas que constituem o diálogo, cada uma das quais, pela sua autonomia  , serve de baliza à argumentação. No entanto, esta simplicidade é ilusória, pelo facto de descaracterizar por completo a estrutura do diálogo. Em primeiro lugar, esconde a complexidade e subtileza da refutação da primeira resposta   (que se estende por quase dois   terços da obra); depois, ignora o fio que profundamente a liga às outras duas, não prestando qualquer atenção   ao deslize da questão do saber para a da opinião   e desta para a do logos  , que remata o diálogo, deixando a investigação numa aparente aporia  .

O maior defeito   desta perspectiva do Teeteto reside no modo como impede a apreensão   da unidade   da obra, diluindo a investigação sobre a natureza do saber num arbitrário e quase irrelevante encadeamento de debates inconclusivos. Tentando superar as dificuldades expostas, esta introdução visa propor uma interpretação   que faça justiça à unidade do Teeteto, sem deixar de analisar cada uma das partes que o constituem e apreciar o modo como se articulam entre si.

O argumento do diálogo é animado por uma intenção  , expressa no plano dramático: a de recordar a personalidade de Teeteto, relatando um episódio da sua educação   filosófica (144d-15le). Esta intenção explica alguns excessos erísticos da argumentação de Sócrates, bem como as frequentes digressões, particularmente no curso da refutação de Protágoras  . Mas deixa-se progressivamente atenuar, ao longo das refutações da segunda e terceira respostas de Teeteto, devido à especiosa dificuldade de muitos dos problemas levantados pela argumentação de Sócrates.

Este facto indicia uma gradual transformação   na abordagem da questão do saber. Podemos considerar o exame   da primeira resposta meramente introdutório e constitutivo do problema, refutando Teeteto, a partir da crítica das sucessivas versões apresentadas da onto-epistemologia, atribuída a Heráclito e Protágoras.

Tudo muda, porém, após a refutação desta resposta, emergindo o saber como problema autônomo. O exame   da segunda resposta dá origem à constituição da cognição, como atividade   unificada: à emergência do «problema do conhecimento», poderemos dizer. É desta que parte o exame da terceira resposta", o qual, aceitando os resultados da análise precedente, se confronta com uma nova dificuldade: a da possibilidade e meio de atingir o saber.

Esta perspectiva contribui para colocar o problema da integração do diálogo no Corpus   em termos muito diferentes dos habituais.