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Bréhier (HF) – Ciência e Dialética do Amor

segunda-feira 19 de setembro de 2022

    

Sucupira Filho

À reminiscência das ideias vincula-se estreitamente, no Ménon  , a possibilidade de possuir opiniões acertadas sem poder justificá-las, isto é, sem dominar o conhecimento (97 c-98 c). Assim, os célebres políticos de Atenas, Aristides ou Péricles, bons dirigentes da cidade, não possuíam qualquer conhecimento político, isto é, nenhum conhecimento metódico que merecesse o nome de arte. Não puderam, mesmo, transmiti-lo, nem fazer políticos os próprios filhos (93 c - 94 e). Praticamente, quando se tratava apenas de agir, a opinião   justa equivalia ao conhecimento. Como essa opinião não é inata no indivíduo  , e como não é sempre adquirida por instrução  , é forçoso que ela derive da inspiração   dos deuses (99 c; 100 b). Essa inspiração conta-se entre os favores concedidos pelos deuses à cidade ateniense. Trata-se de um aspecto que nenhum ouvinte de Platão   poderia estranhar. Para um grego, a cidade permanece necessariamente sob a proteção dos deuses aos quais ela rende culto.

Dado que a reminiscência do Ménon se realiza no mito   da preexistência da alma   do Fedro  , a inspiração exige, também, seu complemento mítico, que fará captar pela imaginação   as influências que se exercem na alma: tal o mito de Eros  , no Banquete   e no Fedro. Platão vincula a inspiração filosófica a um conjunto   de fatos do mesmo gênero  . Essa inspiração é um aspecto da loucura amorosa, uma vez que a filosofia é para Platão o que havia sido para Sócrates  ; não, meditação   solitária, mas geração espiritual na alma do discípulo, já que «não se engendra senão no belo» e sob a influência do amor (Banquete, 206 c). O amor tende para a imortalidade  , tanto o dos corpos belos, que prolonga a vida de um indivíduo em outro, como o amor das almas belas, que desperta as forças adormecidas da inteligência  , no mestre como no discípulo (206 d; 208 b). A vida do espírito   está como encaixada na vida do corpo. Do desejo instintivo que impele o ser   vivo a gerar seu semelhante até a visão   instantânea do belo eterno e imperecível, há progresso contínuo  , que é progresso em geral, um progresso que emociona, não mais pela beleza de um só corpo, mas por toda a beleza plástica. Acima da beleza plástica situa-se a das almas, a dos ofícios e ciências; mais acima, ainda, o mar imenso do Belo, do qual provieram todas as coisas belas (209 e - 212 a).

Platão insiste demoradamente sobre a natureza demoníaca do amor. A crer em suas palavras, os demônios desempenham, no culto religioso, um papel de primeira ordem  : são intermediários entre os homens e os deuses; levam aos deuses as preces dos homens, e a estes as dádivas dos deuses. Eros é desses demônios, filho   de Poros   e Pênia, que une à pobreza   da mãe a engenhosidade, os férteis recursos do espírito do pai: é o tipo e o padrão dos filósofos; simboliza tudo que existe de inspiração e de ardor; é, na ordem afetiva, o que, na ordem intelectual, são as matemáticas; atrai para o belo, como as matemáticas atraem para o ser X (202 e - 203 c).

Da mesma maneira que Eros personificado é um demônio dentre os outros, a loucura amorosa é também uma espécie de gênero mais amplo que compreende toda «loucura procedente dos deuses» (Fedro, 245 b). Platão pensa, particularmente, nas crenças e práticas religiosas que se relacionam a um tipo de adivinhação  , cuja importância social era imensa: a adivinhação da Pítia deifica, «que tanto bem faz à Grécia, graças à loucura, e que ninguém faria em estado   normal» (244 b). A loucura do profeta   que vaticina é posta em paralelo com a loucura do poeta possuído   pelas musas  , cujas obras instruem as gerações futuras. A essas duas formas de delírio, de que os gregos salientam a importância, Platão compara o delírio do enamorado; e não é de menor valor  , pois que é a agitação de uma alma que reconhece, nas coisas sensíveis, a imagem da beleza eterna que ela contemplou, quando vivia, antes da vida terrestre, em companhia dos deuses. É o ponto de partida da filosofia, e restitui à alma as suas asas (249 a -250 c); aguilhoa a alma, como Sócrates, o amante perfeito do Banquete (216 a), é, na Apologia   (30 e), o moscardo que estimula os atenienses.

O tema de Eros e, de maneira geral, o da inspiração divina, põe a nu o fundo afetivo da ciência platônica. A filosofia não é, para Platão, o método pura e estritamente intelectual. «O órgão pelo qual se compreende é como o olho, que é incapaz de voltar-se para a luz   de outra forma que com todo o corpo; igualmente, é com a alma plena que se opera a.conversão do devenir em ser... Há homens maus que são hábeis e cuja alma mesquinha possui visão aguda e penetrante...; e quanto mais têm penetração, maior é o mal que praticam!» (República   518 e sq.) Essa visão dos medíocres opõe-se à visão do Belo, que promana do amor e é o coroamento da iniciação   amorosa.

Além disso, o mito liga a vida filosófica ao conjunto do destino humano, e, por isso, ao universo   inteiro, que é seu teatro   de ação. A queda   da alma, do céu à terra  , seus avatares, conversão e retorno à visão de onde partiu, eis o que constitui a essência   do mito do Fedro e da alegoria   da caverna  , na República. A alma decaída do Fedro (246 c) assemelha-se ao prisioneiro que, colocado na caverna escura, as costas voltadas para a luz, não vê senão a sucessão, mais ou menos regular, das sombras sobre o fundo da caverna, até que a dialética interceda, num movimento   de conversão, no sentido da luz (República, 514 a - 516 a).

Original

A la réminiscence des idées se rattache très étroitement, dans le Ménon, la possibilité de posséder des opinions droites sans être capable de les justifier, c’est à dire sans avoir la science (97c 98c). Ainsi les célèbres politiques d’Athènes, Aristide ou Périclès, qui ont bien dirigé la cité, ne possédaient aucune science politique, c’est à dire aucune connaissance méthodique méritant le nom d’art ; sans quoi, ils eussent été capables de l’enseigner et de la transmettre ; or ils n’ont pas même pu faire de leurs propres enfants des politiques (93c 94e). Mais, pratiquement, lorsque l’action seule est en question, l’opinion droite équivaut à la science. Comme cette opinion n’est pas innée à l’individu, et comme elle n’est pas non plus acquise par l’instruction, il faut qu’elle dérive de l’inspiration des dieux (99c-100b). Cette inspiration est parmi les faveurs faites par les dieux à la cité athénienne. C’est un trait qui ne pouvait étonner aucun auditeur de Platon ; pour un Grec, la cité reste nécessairement sous la protection des dieux à qui elle rend un culte.

Comme la réminiscence du Ménon se réalise dans le mythe de la préexistence de l’âme du Phèdre, l’inspiration appelle aussi son complément mythique, qui fera saisir par l’imagination les influences qui s’exercent en l’âme ; c’est le mythe d’Éros dans le Banquet et le Phèdre. Platon rattache l’inspiration philosophique à tout un ensemble de faits du même genre. Elle est elle même un aspect de la folie amoureuse ; car la philosophie est pour Platon ce qu’elle avait été pour Socrate ; elle est non pas méditation solitaire, mais génération spirituelle dans l’âme du disciple ; or « on n’engendre que dans le beau » et sous l’influence de l’amour (Banquet, 206c). L’amour tend vers l’immortalité, aussi bien l’amour des beaux corps qui prolonge la vie d’un individu en une autre que l’amour des belles âmes, qui réveille les puissances dormantes de l’intelligence chez le maître comme chez le disciple (206d ; 208b). La vie de l’esprit est ainsi comme entée sur la vie du corps ; du désir instinctif qui pousse l’être vivant à engendrer son semblable jusqu’à la vision subite du beau éternel et impérissable, il y a un progrès continu qui est un progrès en généralité ; c’est un progrès d’être ému non plus par la beauté d’un seul corps, mais par toute beauté plastique ; mais au dessus de la beauté plastique se trouve celle des âmes, des occupations et des sciences, et au dessus encore, la mer immense du Beau dont toutes ces beautés sont issues (209e 212a).

Platon insiste longuement sur la nature démoniaque de l’amour ; à l’en croire, les démons jouent, dans le culte religieux, un rôle de premier plan ; ils sont l’intermédiaire entre les hommes et les dieux, apportant aux dieux les prières des hommes, et aux hommes les dons des dieux. Éros est un de ces démons, le fils de Poros et de Pénia, qui unit à la pauvreté de sa mère l’ingéniosité, les fertiles ressources de l’esprit de son père : il est le type, et comme le patron des philosophes ; il symbolise en lui tout ce qu’il y a en eux d’inspiration et d’élan ; il est, dans l’ordre affectif, ce que sont, dans l’ordre intellectuel, les mathématiques ; il attire vers le beau, comme les mathématiques attirent vers l’être (202e 203c).

De même qu’Éros personnifié est un démon parmi les autres, la folie amoureuse est aussi une espèce d’un genre plus vaste qui comprend toute « folie venue des dieux » (Phèdre, 245b). Platon songe en particulier ici aux croyances et pratiques religieuses qui se rattachent à un mode de divination dont l’importance sociale était immense, la divination de la Pythie delphique « qui fait tant de bien à la Grèce grâce à sa folie, et qui dans son bon sens, n’en fait aucun » (244b). La folie du prophète qui vaticine est mise en parallèle avec la folie du poète possédé des Muses, celui dont les œuvres instruisent les générations futures. C’est à ces deux délires dont tous les Grecs acceptent la valeur que Platon vient comparer le délire de l’amoureux ; il n’est pas d’une valeur moindre ; puisqu’il est l’agitation d’une âme qui reconnaît, dans les choses sensibles, l’image de la beauté éternelle qu’elle a contemplée, lorsqu’elle vivait, avant sa vie terrestre, en compagnie des dieux ; il est donc le point de départ de la philosophie, et redonne à l’âme ses ailes (249a 250c) ; il aiguillonne l’âme, comme Socrate, l’amant parfait du Banquet (216a) est, dans l’Apologie (30e), le taon qui stimule les Athéniens.

Le thème d’Éros et, d’une manière générale, celui de l’inspiration divine met à nu le fond affectif de la science platonicienne, La philosophie n’est pas pour Platon une méthode purement et étroitement intellectuelle. « L’organe par lequel on comprend est comme l’œil qui est incapable de se tourner vers la lumière, autrement qu’avec tout le corps ; de même c’est avec l’âme tout entière qu’il faut opérer la conversion du devenir à l’être... Il y a des méchants qui sont d’habiles gens et dont la petite âme a une vision aiguë et pénétrante... ; mais plus elle a de pénétration, plus ils font de mal ! » (République, 518e sq.). Cette vision des médiocres s’oppose à la vision du Beau, qui procède de l’amour et qui est le couronnement de l’initiation amoureuse.

De plus, le mythe relie la vie philosophique à l’ensemble de la destinée humaine et par là à l’univers entier, qui en est le théâtre. La chute de l’âme, du ciel sur la terre, ses avatars sur terre, sa conversion, et son retour à la vision d’où elle est partie, voilà ce qui fait le fond du mythe du Phèdre et de l’allégorie de la caverne dans la République : l’âme déchue du Phèdre (246e) est le prisonnier qui, placé dans la caverne obscure, le dos tourné au jour, ne contemple que la succession plus ou moins régulière de vaines ombres sur le fond de la caverne jusqu’à ce que la dialectique vienne lui donner un mouvement de conversion vers la lumière (République, 514a 516a).


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