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Natureza

sexta-feira 25 de março de 2022

Segundo John N. Deck, Plotino   usa a palavra physis («natureza») em vários sentidos, que são necessariamente, mas facilmente, distinguidos. Em um sentido geral, a natureza pode significar a «constituição» de uma coisa ou um princípio. Este é o sentido do termo no qual Plotino   pode se referir à natureza do corpo (Enéada III.6.6), a natureza da forma (Enéada III, 6  , 4), ou até a natureza do Bem (Enéada IV, 8  , 13)Ainda, a natureza pode significar hipóstase, como quando Plotino   chama o Uno a primeira natureza e o Noûs a segunda natureza.

Mas em Enéada III, 8   e em muitos outros lugares, a natureza significa a parte inferior da Alma-do-Mundo. Esta parte, funcionando em plantas e na terra (para Plotino   a terra é viva — Enéada IV, 4  , 27), é proximamente correlativa à alma generativa-vegetativa no homem e no animal.

A Natureza parece preencher o intervalo entre os mundos inteligível e visível, e na natureza a distinção entre estes dois mundos pode parecer enevoada. Por outro lado, a natureza é uma alma (Enéada III, 8  , 4), um logos, um eidos, (forma como inteligível) (Enéada III, 8  , 2). É imóvel (ibid.), distinta da matéria e do corpo (Enéada V, 8  , 3). As plantas e os animais têm a natureza em si, «como tal, disposta próxima ou ao lado» (Enéada IV, 4  , 14). A matéria não entra em sua constituição (Enéada V, 9  , 6; Enéada III, 8  , 2). Por outro lado há a afirmação: «O que vem da alma e está refletida na matéria é natureza, na qual, ou melhor, diante da qual, seres reais cessam. E estes são o os últimos dos inteligíveis: pois destes em diante só há imitações» (Enéada IV, 4  , 13).

A não ser que este «diante da qual» seja tomado em um sentido forte, que não parece o caso na citação acima, Plotino   está localizando a natureza na fronteira entre seres reais e imitações (Enéada V, 1  , 7). Como alma, pode se ter a expectativa de ser um ser real, mas é a última irradiação da alma para em direção ao corpo (Enéada IV, 4  , 13). A mais enfraquecida das coisas reais, não é exatamente um ser real. A contemplação que tem e é, contemplação com a de um homem dormindo ou sonhando, é inferior à contemplação apropriada para um ser real. No entanto é um forma inteligível distinta da forma visível, que é um logos procedendo dela [1].

A natureza não é exatamente ser real, nem é, sem qualificação, alma. É verdade que Plotino   descreve ela como uma alma inferior, como o rebento da alma (Enéada III, 8  , 4) — mas mesmo o corpo, na medida que é ser, é alma. A natureza é «o último da alma» (Enéada IV, 4  , 13). A alma, descendo nas plantas, faz outra hipóstase. Assim ela «parece» descer; ela desce «de certo modo»; há «algo de» alma, um traço de alma (Enéada V, 2  , 1), nas plantas. A natureza é uma imagem especular da alma, a qual a alma dá ao corpo (Enéada I, 1  , 8). A natureza é uma imagem da sabedoria da Alma-do-Mundo, «possuindo a última intelectualidade irradiada (logos)» (Enéada IV, 4  , 13). A continuidade da natureza com a alma é assim o que Plotino   considera como a continuidade linear de um inferior com um superior.



[1Inge afirma bastante categoricamente: «A Natureza é a mais baixa das existências espirituais... Plotino concede realidade ou existência espiritual à natureza».