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Epicteto: Felicidade e Ataraxia

quinta-feira 24 de março de 2022

      

Excertos de Epicteto  , Manual, trad. do grego de D. Frei António de Sousa, bispo de Viseu, ed. de 1785, pp. 1-151.

Não devemos ter medo nem da pobreza  , nem do exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas devemos ter medo do medo. Epicteto

Das coisas que há no mundo, umas estão em nossa mão e outras não. Em nossa mão estão a opinião  , a suspeita, o apetite, o aborrecimento, o desejo e, numa palavra  , todas as obras que são nossas.

Não estão em nossa mão o corpo, a fazenda, nem a honra   [reputação], nem o senhorio, nem em efeito nenhuma das que não são obra nossa.

As coisas que estão em nossa mão, de sua natureza são livres e senhoras sem impedimento   nem embaraço. E as que não estão em nossa mão, de si são fracas, servis, embaraçadas e sujeitas.

Pois olha que, se tiveres por livre o que de sua natureza não o for, e por teu o que em efeito não o é, haverás de embaraçar-te, e lamentar-te, e queixar-te dos deuses e dos homens. Mas se só o que é teu tiveres por tal, e por alheio, como o é, o que não é teu, não haverá nunca quem te faça força; a ninguém acusarás; de ninguém te queixarás; nenhuma coisa farás contra tua vontade; não terás nenhum inimigo  ; ninguém te fará mal; nem receberás nenhum dano nem perda.

Se vires algum homem   muito honrado, ou poderoso, ou por qualquer outra via engrandecido, olha que não te deixes levar daquelas aparências e o tenhas por bem-aventurado  ; porque se a importância, e ser do sossego se puder ser no que está em nossa mão, nem a inveja  , nem a emulação terão lugar   em nada; e tu mesmo, antes que ser imperador, cônsul, nem senador, tomarias ser livre e senhor   de ti mesmo: para o que há um só caminho, que é o desprezo de todas as coisas que não estão em nossa mão.

Traze sempre diante dos olhos a morte, desterros e tudo que se tem por trabalho  , e mais que tudo a morte. E com isto nem terás nenhum pensamento   baixo, nem desejarás nada com muita força.

Das coisas que servem ao corpo não se há-de tomar mais de quanto convenha para o ânimo; como de comer, beber, vestido, e casa  , e serviço: o que não serve senão de vaidade  , ou de delicias, deita-o de ti.

Quando algum te fizer mal, ou disser de ti, lembra-te que cuidava que fazia bem naquilo, e assim lhe pareceu; porque não pode ser que ele siga o teu entendimento, senão o seu. E se ele julga mal de tuas coisas, sua é a perda, pois que vive enganado. Porque se um julga a verdade   por mentira  , não é por isso ofendida a verdade, senão o que a não conheceu. Com esta consideração   sofrerás com ânimo o que disser mal de ti, e a tudo dirás: assim lhe pareceu a ele.

Se a razão, que deve regular todas as coisas, é desregrada, quem a regulará a ela?