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Coomaraswamy (AKCcivi:156-157) – atman = corpo?

domingo 13 de novembro de 2022

      

Nota a Coomaraswamy (AKCCivi:107-113) – O Caminho do Peregrino

Bhusnur-atma  : na versão de Keith é “o corpo dele cresce”. A interpretação que esse grande erudito védico dá a atman é “corpo”, o que pode ser entendido aqui se levarmos em conta a posição dele como está explicado na edição e tradução que fez do Aiatareya Aranyaka (introdução, p. 42), onde fala da “maneira ingênua em que o conhecimento é transformado na característica do Atman” no sistema Advaita  , acrescentando que “por não ser   empírico, esse conhecimento não tem utilidade   para nós e não pode ser descrito como conhecimento”. Concordamos com esse tipo de conhecimento, ou melhor, de gnose, em que não há distinção entre quem conhece e a coisa que é conhecida (Brhadaranyaka Upanixade   IV.3.30). “Não existe uma cessação do conhecimento da pessoa   que conhece, mas não se trata de uma segunda coisa que poderia conhecer, a não ser algo separado de si mesma (Enéadas  , de Plotino, V.8.10-11). “Nenhuma visão a não ser no sentido de identificação... É o outro, o Princípio intelectual, que vê... a si mesmo  ”; analogamente, a lição cristã que afirma que o conhecimento de Deus   é um conhecimento especulativo (não derivado de nenhuma fonte externa a ele próprio) não é o que o erudito moderno denomina “conhecimento”. Mas esse tipo limitado de conhecimento que os eruditos leigos modernos reivindicam (mesmo se supusermos que a irrealidade de tudo que se indica por gnose “não tem sentido para nós”) não é o que os textos védicos querem dizer quando falam de um conhecimento sem dualidade  . A não ser que suponhamos, ao menos “por uma questão de raciocínio”, a validade de uma gnose, não estamos equipados para compreender (e muito menos traduzir) os textos védicos, inflexivelmente lógicos como são, uma vez aceitas as suposições básicas que encerram. A menos que aceitemos essas suposições, a nossa tradução não passará de uma simples análise gramatical; para traduzir sem fazer uma paródia temos de proceder ao menos como se as suposições básicas fossem válidas.

Quanto à tradução de Atman por “corpo”, não negamos que no uso reflexivo “quem não consegue pensar   em nada mais nobre do que corpos” tem algum tipo de dificuldade  . Se acreditamos que o corpo é a própria pessoa, Atman tem de significar “corpo”; na realidade, esta é a interpretação leiga descrita no Chandogya   Upanixade VIII.8.5 como “doutrina   diabólica” (asura   upanisad). Também lembramos de Sankaracarya fazendo observações fulminantes em relação ao Bhagavad Gita XIII.2, em que diz: “Então como existem Doutores que afirmam como os homens mundanos: ‘Eu sou   Fulano ou Beltrano’ e ‘Isto é meu’? Ouçam bem: é porque acham que o corpo é eles mesmos”.

Neste contexto presente   poderíamos observar   que o peregrino   está à procura da vida e “ninguém fica imortal com o corpo” (Satapatha Brahmana   X.4.3.9). Nem um corpo poderia ser basicamente um “corpo” se considerássemos que prospera quando o “pecado   desaparece”, como o próprio Keith traduziu o sere ...papmanah seguinte; com base nisso poderíamos ter esperado ao menos encontrar a tradução “a alma   dele cresce”, embora do ponto de vista da tradição védica isso fosse insatisfatório, tendo em vista que nela o que se considera imortal é mais a alma do que o corpo.

A palavra rara bhusnu (= bhavisnu) é significativa. Em Manu   IV. 1335, Buhler a interpreta como “quem deseja a prosperidade”. A forma verbal é optativa ou talvez fosse melhor dizer que exprime uma tendência. A palavra se deriva de bhu (tornar-se, transformar-se em alguma coisa) e podemos fazer uma comparação com bhuyas (”tornar-se algo que está num grau mais alto”, “tornar-se mais”) e com bhuyistha (”tornar-se algo no grau mais elevado”, “super”, ou, em outras palavras, “passar a existir”). Nesse caso bhusnur-atma implica que o espírito do verdadeiro viajante está florescendo, progredindo da potencialidade para a ação, tendendo para uma existência aperfeiçoada. O Espírito em questão é o Espírito visto apenas de forma imperfeita no animal   (= homem  ), no pasu, e é cada vez mais claramente manifestado num Homem ou Pessoa, num purusha  : “O que conhece de forma cada vez mais clara a sua própria essência espiritual (yo atmanam avistaram veda  ) desfruta muito mais... (avir bhuyas)... A essência espiritual é manifestada de forma cada vez mais clara no Homem (puruse tv evavistaram atma). É essa espécie de “ser mais” que satisfaz o viajante, que está se transformando no que é (wird was er ist), enquanto a pessoa que fica em casa   permanece empiricamente “ela própria” (o único “eu” que conhece).

Evidentemente o que se desenvolve é o homem todo, corpo, alma e espírito (compare com Aitareya Brahmana   II 1.3: sarvair angaih sarvenatmana samr-ddhyate ya evam veda); e por esse motivo, sem querer dar ênfase a nenhuma parte especial da constituição do viajante, traduzimos a palavra atman por “pessoa”, em vez de “espírito”. “Pessoa (purusha) é um equivalente real, quer estejamos nos referindo a “um determinado homem” (Fulano ou Beltrano) (atman no sentido reflexivo), quer estejamos falando da Pessoa, do Homem Universal   e do próprio Eu, único sujeito que consegue conhecimento e discriminar toda e qualquer coisa (Brhadaranyaka Upanixade III.3.11) e a quem se deve recorrer na maioria das vezes (Ait. Up, V = AA.II.5).


Ver online : Ananda Coomaraswamy – O que é civilização?