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Brun: A Natureza

quinta-feira 24 de março de 2022

    

A obra de Heráclito   teria tido por título Da Natureza, título habitualmente utilizado pelos filósofos pré-socráticos   ou ao menos frequentemente atribuído às suas obras. É provável que Heráclito, como os antecessores, quisesse apresentar um quadro explicativo dos diferentes fenômenos que o homem   pode observar   no universo  . O que a este respeito nos resta dos textos de Heráclito levanta o problema de saber se as suas explicações se devem tomar à letra  , sublinhando o seu carácter pré-lógico e pré-científico, como faz F  . M. Cornford.

Diz-se que a natureza «gosta de se esconder» (fgt. 123), e sabe-se que a obscuridade de Heráclito era consciente. Estamos, por conseguinte, perante especulações difíceis de compreender, sobre um assunto que é em si mesmo   reservado. As interpretações são necessárias, mas não é fácil saber a partir de que momento correm o risco de se afastar do objeto a que se referem. A ideia central da física é a do ciclo   e harmonia   dos contrários  . O movimento   para baixo é o do fogo   que origina o mar; deste nascem em duas partes iguais, por um lado, a terra  , por outro, as trombas de água. Quando o relâmpago fulmina, assiste-se a uma precipitação de chuva mais violenta e, no que diz respeito ao mar, Heráclito devia ser testemunha do assoreamento do porto de Éfeso, diante do qual o mar recuava pouco a pouco. O movimento inverso, que começa em baixo para atingir o cume, faz voltar a terra à água e a água ao fogo, por intermédio das exalações secas que alimentam os astros, sobretudo o Sol  . Porque as exalações constituem o princípio mais incorporai de que as coisas são constituídas, princípio que está em fluxo perpétuo. Reencontramos na explicação física de fenômenos atmosféricos o tema não só do ciclo e união   dos contrários mas ainda da divisão   da unidade   segundo o múltiplo e do regresso do múltiplo ao Uno primitivo.

Em astronomia  , parece que Heráclito conheceu o movimento da Lua   e do Sol, bem como o trajeto dos planetas na elíptica, cuja inclinação   possivelmente conheceu. Se, paradoxalmente, afirma que o dia e a noite são uma e a mesma coisa, é porque cada um deles engendra o outro, segundo o ritmo dos dias, ritmo que ilustra o tema da harmonia dos contrários e do ciclo.

Em definitivo, o essencial do pensamento   de Heráclito não reside nas explicações que deu dos fenômenos naturais e que naturalmente fazem parte das ideias caducas, pertença da pré-história da ciência. O essencial do pensamento de Heráclito reside nas ideias que orientam tais explicações e que nascem da visão   trágica do mundo, que comanda a sua concepção do Logos  , do Devir e da Harmonia dos contrários.

Heráclito caminha para nós, portador de uma Mensagem que nos liga à sua proveniência e que as interpretações jamais conseguirão esgotar. (Jean Brun  , "Pré-Socráticos")