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O noûs em Platão

quinta-feira 24 de março de 2022

    

5. Em adição ao noûs   imanente nas almas humanas (o logistikon  ; ver psyche   15, 18) cuja operação é conhecer os eide e governar todas as outras partes da alma (ver noesis 8-9), há, em Platão, um noûs cósmico  . Esta razão cósmica emerge no Phil. 26e-27c onde é chamada «o fautor» (demiourgoun, poioun), a «causa   da mistura» que é o mundo da genesis  . Quase os mesmos termos são aplicados ao demiourgos   do Timeu   onde o kosmos noetos é chamado a obra do noûs (47e). Ora o noûs é uma propriedade essencial dos deuses partilhada apenas por alguns homens (ibid. 51e) e parece mais que provável que este noûs cósmico é divino   (ver Phil. 30d, Timeu 30b). Governa tudo (Leis 875c-d), ordenou o universo   (ibid. 966e), e a sua revolução, refletida no movimento   dos céus, é um paradigma   moral para o homem   (ibid. 897d-898a; ver noesis).

6. Mas qualquer tentativa para localizar este noûs divino, a causa cósmica do universo, dentro do quadro da metafísica geral de Platão é recebida com frustração, e não o é menos em virtude   da natureza «mítica» do relato no Timeu. Com frequência somos informados de que o noûs tem de existir numa alma (ver Soph. 249a, Phil. 30c, Timeu 30b), e não há razões para pensar que isto se refere apenas aos intelectos humanos. Se isto é verdade   localiza o noûs, cósmico ou não, abaixo dos eide. O estatuto intermediário   da alma no sistema platônico é bem frisado (imortal e imaterial como os eide, plural e sujeita aos pathe   como os aistheta; ver psyche e, para a tradição   posterior  , 29), e somos informados muito especificamente de que o noûs tem uma relação   dependente dos eide que são a causa da existência do noûs na alma: o noûs é a capacidade da alma perceber os eide (República   508e). Assim se frustram quaisquer tentativas para encontrar um Deus   ou deuses transcendentes em Platão (no Fedro   Platão diz que os deuses devem a sua divindade à sua proximidade dos eide), ou mesmo de o ou os identificar com o Bem que está «para além do ser  » na República 509b. Outra escola de pensamento, todavia, vê o noûs cósmico como o noûs da Alma do Mundo (psyche tou pantos), rejeitando como mito   o fato de no Timeu a Alma do Mundo ser criada pelo demiourgos (34c).

7. Deste modo, pois, Platão cumpre o desiderato da queixa de Sócrates   contra o noûs de Anaxágoras  : primeiro, está declarado em termos já formulados por Diógenes que o kosmos é como é por ser o trabalho   de uma causa inteligente, ajustada para ser «tão boa quanto possível» (Timeu 30 a-b), e depois, numa formulação particularmente platônica, que é uma imagem (eikon  ) do inteligível, um deus visível   (ibid. 92c; sobre a teoria   geral, ver mimesis  ). [Termos Filosóficos Gregos, F  . E. Peters  ]


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